Wednesday, January 25, 2012

A leveza do perdão.

Já faz um tempo que venho tentando, sem muito resultado, levar a vida menos a sério. E hoje vi uma cena que me me tocou bastante. Em um concerto de música clássica na Eslováquia um jovem judeu ortodoxo tocava seu violino quando foi interrompido por um celular, aquele famoso Nokia tune. Ao invés de esbravejar como imaginamos que um músico clássico faria, ele tocou o Nokia tune com seu violino lindamente. A cisuda plateia deu gargalhadas e apladiu. A imperfeição do momento o tornou único e belo. Fora a quebra do preconceito de que um judeu ortodoxo e músico erudito seja uma pessoa extremamente séria, ele se mostrou uma pessoa leve e soube perdoar com graça a falha humana. Que riqueza de espírito! Será que um dia eu ainda chego lá?


O vídeo:




Obrigada, Douglas, pelo vídeo.

Thursday, December 15, 2011

Tá na cara, tá no nome.

Não era beleza, não sei o que era tão cativante nela. Os pés de galinha ao lado dos olhos eram mais marcas de experiência do que sinais de idade. Não parecia se preocupar com anti-rugas. Ela me lembrava uma mulher de Almodóvar, tinha algo de dramático no olhar, era forte. Sempre com aquele sorriso solícito mas espontâneo. Trabalhava em um restaurante em Montevidéo. Passei uma tarde deliciosa neste lugar com minha irmã. Depois de ser tão bem atendida, perguntei seu nome. Ela me respondeu:

- Ana, mi amor. Cortita como la vida.*



* Ana, meu amor, curta como a vida.



Wednesday, November 23, 2011

Minha leitura

Em um livro autobiográfico da Marguerite Duras, ela disse que não conseguia escrever quando estava com um homem. Precisava da solidão. Fiquei pensando nisso. Porque seria? Poderia ser que se sentisse intimidada, ou talvez, estar junto a alguém não deixasse espaço para pensar em assuntos mais intimistas. Outro dia minha cabeça voltou a esse assunto: ela não queria era revelar seus segredos. Escrever é se mostrar, e será que a gente quer se despir demais para os nossos amantes? Bem, sou daquelas que preza pelo mistério.


Ah, o livro se chama Escrever.

Wednesday, October 26, 2011

Pecado original

Tem música que escuto pouco para não enjoar. Mas tem música que é fonte inesgotável de gostar. É igual amor de pai, de mãe, de irmão. É amor absoluto e infinito. Eterno enquanto eu durar.

Sunday, October 9, 2011

Holofotes

Pode apagar a sua luz,
está claro.
É no escuro que se acende,
mas sem encostar no interruptor.

Saturday, September 10, 2011

Tem jeito?

Te amo do meu jeito,
você do seu.
Mas é amor do mesmo jeito.

Thursday, July 28, 2011

Medo

Amo quando te adoro. Odeio quando te amo.

Coração dividido

Quero amar dois.
Eu e você.

Depois da primavera, inverno.

Não disse que ia ser fácil. Não é. Atrás do meu sorriso costumeiro tem sombras também. Você gosta de ficar debaixo da minha luz quentinha, mas agora ela não está aqui. E aí? Ignora, vai passar? Vai passar sim, sempre passa. Meu frio não é bom para você? Mas ele existe, tá?

Friday, July 8, 2011

Apenas uma fotografia

Era uma garotinha engraçada, magrinha de pernas grossas. Devia ter seus dois anos. Vestia uma blusa branca com listas vermelhas bem a moda marinheiro e uma margarida enfeitava seus cabelos curtinhos. Sentada a uma mesa de um caramachão de um bar e segurada pelo pai para não perder o equilíbrio, ela ouvia as músicas que tocavam no rádio e advinhava em seguida quem estava cantando. Nem falava direito, a menininha, mas sabia dizer Roberto Carlos, Rita Lee, Maria Bethânia, Milton Nascimento. Com Gal Costa ela ria mais e acho que batia palmas, se não me falha a memoria. Curiosos como eu nos amontoávamos perto da mesa para ver a prodígio. Era coisa boa de se ver. O pai estava todo orgulhoso. Toda vez que ela acertava, soltava uma gargalhada. Parecia treinada, mas não. Apenas fechava os olhinhos, balançava a cabeça e sentia a música.

Tuesday, May 31, 2011

Enjôo

Gostei tanto daquela música, que a escuto pouco. Por medo de enjoar.

Wednesday, April 27, 2011

Satisfação

Tenho andado bem longe daqui. Fase de transição, literalmente. Mudei de casa, namorado novo, cabeça a mil. Tá difícil escrever sobre as minhas coisas, mas arrumei um objeto de escrita: meu pai. Sempre escrevo sobre ele, como vocês podem notar. Mas tô me dedicando mais, porque o cara dá pano pra manga. Pessoinha sensível, engraçada, de bem com a vida e acima de tudo humana.
É com muita satisfação que apresento o novo blog em que minha irmã e eu contamos as peripécias do nosso adorado pai.
A quem se interessar:

http://seuvicente.wordpress.com/


Espero que gostem. Ah, não abandonei o blog, tá? Só estou mais devagar.

Beijos!

Thursday, April 14, 2011

Ivonaldo, te dedico.

- Ivonaldo é louco para namorar a minha irmã, mas ela não quer nada com ele. – disse a minha amiga Júnia*.

Para falar sobre o Ivonaldo (incrível esse nome), vou ter que voltar um pouquinho. Mudei de casa há pouco. Moro agora com uma amiga, a Júnia . Estamos nesse processo delicioso de decorar a casa, comprar e reformar móveis, essas coisas.

Precisávamos pintar as paredes, aí a Júnia foi ver se sua mãe conhecia algum pintor. Não tinha pintor, mas tinha o Ivonaldo que logo se ofereceu para fazer o trabalho. Até então eu pensava que ele era namorado da irmã da Júnia, a Laura*.

Ivonaldo foi lá em casa - uma simpatia de pessoa - mediu as paredes, conversou sobre a tinta, deu umas dicas. Só não conseguiu trocar as nossas lâmpadas fluerescentes, bem, nem o Ivonaldo é perfeito.

A Júnia mandou fazer um rack lá pra casa, mas precisaríamos de um carreto para buscá-lo. A outra opção era esperar até a próxima semana que o Ivonaldo o traria em sua caminhonete. Pensei com meus botões: Mas que namorado gente boa esse Ivonaldo, hein?

Então Júnia vai e me fala a primeira frase desse texto.
Ah não! Como assim Laura não quer namorar Ivonaldo? O cara faz favor até pra nós que não temos nada a ver com a história.

Aí que vi que o mundo tá cheio de Ivonaldos e de Lauras! Homens legais e mulheres que não querem nada com eles. Mulheres, vamos acordar e dar uma chance pros Ivonaldos da vida?

A mulherada deu pra ficar afim desse bad boy moderno, safadão, que fica meses com elas sem compromisso, que pega deus e o mundo e depois aparece com a maior cara de pau nas suas casa e vai direto pra suas camas, ou para suas cozinhas. Ele quer é comer, né?

Enquanto isso os Ivonaldos estão aí dando sopa. Bem, acho que eu era uma dessas desavisadas que ficava a mercê dos projetinhos de príncipes encantados. Porque a gente realmente acredita que aquele carinha folgado de fala mansa que tem uma nespresso em casa é um príncipe, né? Eu sei porque eu acreditava. Mas eu encontrei meu Ivonaldo, um cara fantástico que faz tudo por mim, cozinha, instala máquina de lavar roupa, leva para jantar romântico, escreve carta e põe no correio, advinha meus desejos...

Chance para o Ivonaldo, dona Laura!

* Os nomes das garotas foram trocados, mas não me atrevi mudar o nome do Ivonaldo, como eu disse, adoro esse nome.

Monday, April 11, 2011

A palavra com "a"

Não sabia se aquele seria o melhor momento. As condições estavam propícias: nós dois altinhos de vinho, juntos na mesma cama, luz apagada e só claridade que vinha da rua iluminava os nossos rostos.

Já não dava mais para esconder. “Te adoro” já não era suficiente. Preparei o terreno antes de soltar a bomba:

- Te amo.

Não lembrava que era tão bom dizer isso. Repeti várias vezes:

- Te amo! Te amo! Te amo!

Ele correspondeu com muitos beijos e “te amos" (ainda bem).

Um mês depois do ocorrido, tenho achado “te amo” pouco. Queria outra palavra. Porque a linguagem limita tanto o que eu sinto? Não consigo mostrá-lo meu “te amo advanced”, não com palavras. Porque não existe um verbo superior ao amar?

Dizem que as respostas para as nossas perguntas estão em nós mesmos. E não é que estão? Pensando em uma forma de mostrar que eu o amo mais e mais e ainda mais, lembrei do muso Milan Kundera que disse que o amor é absoluto em A imortalidade. Não se ama ninguém mais ou menos, simplesmente se ama. Absoluto e indivisível é o amor. Por ser indivisível, é completo, é o todo. É isso aí, eu te amo absolutamente, que é o único jeito de amar.

SMS

- Tô sentindo um aperto no coração de ficar longe de você... mas pode ser fome também.

Wednesday, April 6, 2011

Radical, eu sei.

Encontrei um conhecido, um músico. Perguntei como ia sua banda, suas composições. Ele disse que estava tudo parado e que a tristeza em que vivia não o deixava compor.

Não entendi a desse cara. A tristeza é um contraditoriamente um dos materiais mais ricos para se criar. O dom de transformar dor em beleza é de fazer inveja a qualquer alquimista. Acho que ele estava era com preguiça, ou não queria dividir seus lamentos em forma de música com ninguém. Egoísta! Merece sofrer!

Thursday, March 17, 2011

Músicas de shitsure

Meu amigo e colega de trabalho sempre me faz perguntas práticas ou não sobre as mais variadas coisas, quase sempre curiosas e engraçadas. A de hoje foi:

- Fala aí uma música que faz chorar.

- Como assim, Lucas?

- Uma pra colocar na igreja na hora do casamento e fazer uma mulher chorar.

Ri um pouco e ele logo foi se explicando:

- É pra um amigo meu, ele tá precisando.

- Ele vai se casar?

- Não.

Esse amigo dele devia estar querendo fazer as pazes com alguma menina ou sei lá. Não consegui falar uma música de logo de cara. Não tinha nenhuma guardada na minha memória. Ainda mais que conheço tantas e tenho uma péssima memória. Falei pra ele "Body and Soul" cantada pela Billie Holiday. Ouvimos um pedacinho dela juntos e apesar de achá-la maravilhosa não me deu vontade de chorar, mesmo sendo de corpo e alma.

Pedi um tempo pro Lucas para procurar na minha lista do itunes. Fui achando várias "choráveis" mas não eram de amor, eram músicas de shitsurê como diria a minha mãe japonesa na época do intercâmbio, que também são músicas de amor, mas são mais de coração partido. Claro que eu choraria com uma música triste assim, mas preferiria chorar com uma que fosse uma declaração de amor, sem ser um pedido de desculpa, um "volte pra mim", ou um " esse sofrimento vai passar" ou ainda" um "meu mundo caiu".

Me perguntei porque se fazem mais músicas de shitsurê do que de um amor bem sucedido. (Ou então porque eu ouço mais músicas assim). Ah, esclarecendo, shitsurê é um tipo de desculpas, meio complicado de explicar, mas acho que deu pra entender.

Talvez as músicas que falam de sofrimento sejam mais reais. As de amor são verdadeiras sim, mas são um pouco ilusórias, como How deep is the ocean. Sou romântica pé-no-chão se é que isso existe, acredito no sofrimento e desconfio do amor, por isso escolhi uma música perfeita que me faria chorar por ser uma declaração de amor realista e romântica ao mesmo tempo. Com vocês ladies and gentlemen: Sir Paulinho da Viola com Mente ao meu coração.



ps: Tá ruim o som da Body and soul mas pus ela assim mesmo, porque é a minha versão favorita.

ps2: Para facilitar a vida das pessoas:

Mente ao meu coração


Paulinho da Viola ( O príncipe, o gentleman, o sir)

Mente ao meu coração
Que cansado de sofrer
Só deseja adormecer
Na palma da tua mão
Conta ao meu coração
Estória das crianças
Para que ele reviva
As velhas esperanças
Mente ao meu coração
Mentiras cor-de-rosa
Que as mentiras de amor
Não deixam cicatrizes
E tu és a mentira mais gostosa
De todas as mentiras que tu dizes

Tuesday, February 8, 2011

Beleza e/ou amor

Não entendia muito bem quando meu amigo Juan, na época estudante de Filosofia, dizia com seu jeito dramático e professoral que só a beleza (ele não falava arte, metido!) redimiria os homens. Ele, que era religioso (uma contradição ambulante), falava que nem a religião seria capaz de tanto.

Eu já dizia que isso seria papel do amor. Talvez pareça uma visão um pouco religiosa, mas não era disso que eu estava falando. Não era o amor e a fé em Deus. Era o amor aos outros mesmo, nesses seres falhos que somos nós.

Mas outro dia eu tive uma experiência que uniu amor e arte. Era mais uma segunda-feira deprimente, aqueles dias que a gente custa a sair da cama para encarar a vida. Cancelei meu pilates na hora do almoço e ia ficar na agência enconstada em algum canto para fugir da realidade no meu sono.

Minha amiga e colega de trabalho, Elisa, reclamou sobre os 14 reais que teria que pagar na locadora por um filme que não tinha visto. Era A Single Man do Tom Ford que foi desgraçadamente traduzido como “Direito de amar”.

Como temos duas horas de almoço, sugeri que lhe assistíssemos no computador.
Fiquei surpresa. Que filme lindo, sensível! Na minha visão o filme falava justamente como o amor (lato sensu) poderia “salvar”, no caso, um homem da sua ruína. Pode parecer clichê, mas não é. O filme possui cores lavadas e pastéis, mas toda vez que o homem vivenciava uma experiência que envolvesse amor, seja o contato uma amiga, ou o carinho de uma menininha, lindamente as cores do filme esquentavam e ficavam fortes e pulsantes.

O personagem consegue enfrentar a sua solidão e, parece-me, encarar o mundo. Graças ao amor no ser-humano. E eu consegui encarar a minha segunda-feira graças à arte, ou como diria Juan, à beleza.

ps: O final do filme não é tão previsível assim não, tá? Assistam!

ps: Direito de amar? PQP para essas distribuidoras de filmes brasileiras!

Wednesday, February 2, 2011

Distorção

Quando a distância aumenta,
te sinto mais perto
invadindo meus sonhos
com os mesmos olhos.

Te crio e recrio do jeito que eu quero,
mas longe, muito longe,
do que você é.

Monday, January 31, 2011

Desafiando a falta de inspiração

Estou bloqueada. Janeiro passou e nada. Tentei escrever várias vezes, mas chegava no meio e não conseguia ir até final. Perguntaram se era felicidade demais. Em partes sim. Tive um fim de ano maravilhoso, estou cada vez mais próxima dos meus amigos e o coração está se ajeitando também. Nada de dramas para despejar em um arquivo em branco.

Pensando bem, ficar sem escrever é um tipo de drama, ou pelo menos é algo que me deixa insatisfeita. É como parar de correr, ou sair da dieta, abandonar o piano. É o meu problema em ir até o final. Porque escrever, além de ser uma forma de me expressar e me conhecer melhor é uma maneira de me aprofundar no exercício da escrita e descobrir a quais caminhos ela pode me levar, o que tem sido muito bom até agora.

Quem sabe se dessa vez eu não passo do enigmático meio que sempre vira final antes da hora?

Wednesday, December 22, 2010

Marguerite Duras

Ganhei um livro de uma amiga muito especial: Olhos azuis cabelos pretos da Marguerite Duras. Ainda estou lendo, sou lenta mesmo.

Na dedicatória minha amiga Lenise citou uma frase da Marguerite: "Não existe nada mais público que aquilo que é rigorosamente pessoal".

Valeu, Lerê!

Assinaturas

Eram dois livros iguais na estante. Um pertenceu ao meu pai e o outro a minha mãe. O que foi do meu pai estava mais gasto. O da minha mãe, estava melhor, para um livro que era de 74. Levei-o para ler no avião. Eram pequenos contos, ideal para uma viagem rápida. Ao abrir o livro lá estava ela: perfeita, rígida, firme, opressora, a assinatura da minha mãe. Sempre tive medo da letra dela. Letra de professora. Letra do tipo mais rigososo de professora: da mãe-professora. Até hoje quando vejo a letra perfeita em recados na geladeira sinto um pequeno temor da infância me rodeando como um fantasma que mesmo morto tem existência.

Pego agora o livro do meu pai e lá está seu nome assinado. Vejo a delicadeza, era como se ele estivesse escrito à pluma. De tão leve, a caneta bic quase fica apagada. Ele não usa força para escrever, nem para viver. Não é uma letra bonita como a da minha mãe, mas é macia. A ausência de rigidez a deixa leve, flutuando na página, ao contrário da assinatura da minha mãe, que está cravada no livro e em mim.

Tuesday, November 30, 2010

Vinho, kanji e telhado

Ou foi o vinho ou foi a companhia dele que me deixou tão relaxada como naquela noite. Não sou muito de tagarelar, mas algum dos componentes acima fez com que eu falasse sem parar. Ele só fazia perguntas e me ouvia com atenção, acho que isso me encorajava ainda mais a falar e falar.

Também não me recordo como chegamos ao assunto Japão. Ele deve ter me perguntado sobre os alfabetos. Eu havia morado em Tóquio por um ano - de intercâmbio - e ainda lembrava como escrever uma coisa ou outra em Kanji (aquele alfabeto que parece desenho).

Os desenhos, na verdade, são símbolos que representam uma ideia. Escrevi amor em kanji para ele. Foi quando me lembrei da minha professora de japonês, Kawamura sensei.

Ela era a enfermeira do colégio em que eu estudava. Sempre me observava pelos cantos com olheiras e muito sonolenta. Então um dia ela me perguntou bem incisiva:

- E essas olheiras? Você dorme tarde ou usa drogas?

Achei engraçado e expliquei:

- O sono é porque eu não entendo japonês nas aulas, aí tenho vontade de dormir. As olheiras são herança da família italiana da minha mãe.

Ela sorriu e prometeu que iria me ajudar com o japonês. Conversou com meus professores, com o diretor do colégio e remodelou toda a minha grade.

Lembro da Kawamura sensei me “alfabetizando”.

- Tá vendo esse sinal que parece um telhado e fica sempre em cima do Kanji? Isso significa proteção. Escreva-o cem vezes para não esquecer e depois me mostra aqui.

- Assim tá bom, sensei?

- Ótimo, Carina-chan!

Esse tal telhado ficou escondido em algum canto da minha memória, mas não é que reapareceu aquela noite? Quando escrevi amor para ele, notei que o telhado protegia outro símbolo, o do coração.

Todo japonês deve saber disso, mas fui perceber só 13 anos depois que amor é o coração protegido.

Wednesday, November 17, 2010

Vestindo a camisa

Há cinco anos eu abasteço o carro no mesmo posto. Já conheço todos os frentistas. Aquele moreninho de boné e olhar tímido era novo. Pelo nervosismo dele, devia ser o primeiro dia.
- Bom dia, dona, é... vai ser o que? – falou olhando pra baixo
- Bom dia! Gasolina comum. Pode completar.
- É... cartão ou dinheiro?
- Cartão.
- Confere na bomba então, dona.
Ele foi pegar a máquina de passar cartão e voltou com uma nova, toda modernosa, devia ser dessas Cielo.
- Nossa, que máquina linda! Muito chique, hein, menino?
O frentista continou olhando pra baixo mas sorria orgulhoso. Ele disse na maior inocência:
- Ô dona, muito obrigado.
Foi seu primeiro elogio no trabalho novo.

Monday, November 8, 2010

Mais personals googles

Como se não bastasse ter um pai Google, tenho uma hermana Google também, a Luciana.

No post Personal Google, eu havia dito que meu pai não sabia de onde vinha a palavra abacate. Minha irmã, que é praticamente una chicana con la sangre española resolveu a questão:

"Beibe,

A palavra abacate (aguacate), assim como várias palavras terminadas em -ate, como chocolate, tomate, biscate (hehe, essa eu inventei), vem do náhuatl, a língua dos astecas.
A terminação é -atl, que virou -ate.
Ó que curioso: chocolate escrevia assim: xocolatl
Chocolate é invencao deles, néam?"

Legal, né? Como o abacate mexicano veio parar no Brasil, no tengo la mas puta idea.

Agora chega de etimologia, né meu povo?

Gracias, hermanita!

Besos.

Friday, November 5, 2010

Ao meu alcance

Nem é por querer. Às vezes a minha unha quebra do lado bem embaixo, aí eu puxo a ponta pra fora com os dentes. O dedo fica na carne viva. Até chega a sangrar. Dói, fica latejando, mas é uma dor que eu gosto. Parece que meu coração fica batendo na pontinha do dedo.

Monday, October 25, 2010

Mágoas são para humanos

Sabe o que foi lindo mesmo?

Foi o dia em que eu pisei na patinha do meu cachorro.

Explicando-me melhor: Veludo, o cão em questão era apenas um filhote de 2 meses. Estava lá em casa há 3 semanas e andava atrás de todo mundo. Atrás mesmo. Tinha que ter cuidado pra não pisar no pobrezinho. Ele ainda estava na fase de chorar a noite: "cadê a minha mãe"? E se sentia mais seguro quando esses bípedes que não latem e nem se cheiram estavam por perto. Por isso ele andava colado na gente.

Um dia me descuidei e pisei sem querer naquela patinha minúscula. Foi um aperto no meu coração seguido de um berro do Veludo e uma mordida no meu pé. Mordida forte, que claro que não doeu como a pisada, o Veludo nem dente direito tinha. Mas dava pra sentir a indignação dele. Instintiva ou não, preferi entender a atitude do filhote de daschund como sinal de maturidade. Como se ele me disesse, "você pisou no meu calo (literalmente), vamos resolver agora", tanto é que depois da mordida, ele já era todo amores de novo, só que nunca mais andou atrás de mim.

Voilà

Atendendo a pedidos, aqui vai o link de álbuns franceses.

http://www.taringa.net/posts/musica/2413565/Megapost-Musica-en-Frances-Segunda-Parte.html

Tem muita coisa ruim, mas tem coisas ótimas também. :)

Bisous.

Tuesday, October 12, 2010

Simples assim

Comentar as pérolas do meu pai é irresistível. A última foi assim:

Estávamos ele, meu irmão e eu conversando sobre as eleições durante o jantar.
Meu irmão falava algo sobre os votos da Marina Silva, que ela tinha sido a mais votada em Belo Horizonte. Aí comentei:

- No meu Facebook, a maioria das pessoas estava fazendo campanha pra Marina.

- Facebook? O que é isso? - perguntou meu pai.

- Ah, é uma rede social. - respondi já tentando imaginar como explicaria pro meu pai que raios era uma rede social.

- Hã? - ele fez uma cara de interrogação

- Ih, papai, é meio difícil de explicar. É tipo um...

- Tá, só me fala: é coisa de Internet? - disse meio impaciente.

- É.

- Então já sei o que é: alguma coisa da Internet. Viu? Tá explicado! - ele sorriu e se deu por resolvido.

São só palavras...

Dia 12 de outubro, feriado bem na terça. Como eu precisava de um dia pra ficar só, não abrir a boca e fazer as minhas coisinhas! Comecei o dia acordada por uma maldita construção. Parece sacanagem, né? 6 horas da madrugada e alguém batendo um martelo?! Resolvi ignorar e fui ler um livro que por sinal está emocionante, acho que termino hoje a noite.

Depois do livro, fui ver um pouco de tv. Estava passando o programa de receitas da Nigela. Adoro ela! Super politicamente incorreta, não está nem aí pra carboidratos, gordura, açúcar, perfeição e o caralho a quatro e no entanto é linda e muito divertida com seus quilinhos a mais.

Inspirada pela minha cozinheira destrambelhada favorita resolvi me aventurar pela cozinha. Como havia muitos legumes na geladeira fiz um antepasto de beringela e abobrinha para comer durante a semana e um brownie com nozes para a cozinha ficar com cheirinho de chocolate e, claro, para comer mais tarde com chá. A ideia era ter um quality-time-day-by-myself.

Passei metade da tarde na cozinha. Depois de tudo arrumado subi para o meu quarto para ver como andavam meus downloads. Um filminho no meio da tarde viria a calhar.

Só que internet é aquela coisa, né? Você abre uma página, depois está em outra e quando viu já torrou 3 horas fazendo inutilidades. Lembrei que há muito tempo eu quis baixar o CD da Enzo Enzo (uma cantora francesa) mas não consegui encontrar. Buscando pelo disco dela, descobri um site com centenas de álbuns franceses de todos os tipos, então me pus a escutar no youtube alguns artistas para ver se gostava de algum.

Um dos cantores que me chamou a atenção foi Joe Dassin, mais pela capa antiga do seu disco. A música dele que tinha mais ocorrências no youtube era Et si tu n'existais pas. Escutei e gostei. Bem música romântica francesa dos anos 70, um pouco cafoninha, mas eu gosto de cafona. Até pensei em uma versão para ela. Bem, isso fico para depois.

"E se você não existisse, me diga porque eu existiria" é a tradução da chanson. Dramática, não? Porque será que os autores escreviam letras como essa antigamente? Existe esse tipo de amor que faz não querer existir se o outro não existe? Desconheço.

Talvez eu tenha vivido pouco e amado ainda menos. Ou então, já vivi e amei demais. Não sei... Eu que me julgava romântica considero essa letra um exagero. O fato é que junto com a minha idade vem chegando também a racionalidade. Cada dia caio menos em confusões. Vejo que agora estou mais para Dalida em Parole, Parole, outra música francesa antiga baranguinha, mas lindíssima que significa: "Palavras, Palavras...". Apenas palavras. Falar (cantar) é fácil, quero ver agir.

Abaixo as duas inspirações:

Joe Dassin - Et Si Tu N`Existais Pas (com legenda em turco, ou russo, ou sei lá)


Dalida - Parole Parole ( O dono da voz que canta o "71" para ela é o Alain Delon)

Thursday, October 7, 2010

My personal google

Seu Vicente nunca quis aprender a mexer no computador. “Nunca quis” é meio exagero, porque ele tentou muitas vezes e desistiu. Ele até sabe usar um pouco o Google maps, ferramenta que achou interessantíssima por sinal.

Sempre falo com ele, olha no Google, papai. Sei lá se ele olha ou não, o fato é que o Seu Vicente é um Google espontâneo, muito confiável, e muito mais simpático. Espontâneo porque me passa informações sem que eu esteja procurando, e não são poucas. Confiável, porque aquele lá não tem nada de wikipedia, fala e cita as fontes. Simpático porque... já pensou em conversar com o Google?

- E aí, Google, beleza? Nossa, cara, tô precisando saber umas coisinhas...

- Fala, Carina, como é que você tá hoje? Resolveu aqueles problemas?

Ok, acredito que haveria pessoas que não gostariam de um Google conversador, mas tudo bem. Eu sou meio carente, gosto que conversem comigo e perguntem da minha vida.

Voltando ao meu pai (dos burros), hoje de manhã, enquanto eu comia, falávamos um pouco de portunhol, frantuguês e italiguês como de costume, aí ele me ensinou uma coisa que pode ser completamente desnecessária para minha vida, mas que eu gostei tanto de saber!
Quase todas as palavras começadas com Al e algumas com A da língua portuguesa vêm do árabe! Olha que interessante. Aí, claro, eu tive que testá-lo.

- Álcool? Alfinete? Albergue? Alcova? Almoço? Alface? Almeirão? Almoxarifado? Alcaparra? Alcade? Almofada? Alpargatas? Alpendre? Arroz? Açúcar? Azeitona? etc? Almirante? – Essa ele não tinha certeza, abacate também ele não sabia (vou olhar no Google depois).
Enfim, falei tanta palavra começada com A que cheguei atrasada no trabalho como de costume.

Depois disso fiquei pensando como é bom ter esse Google em casa. Lembrei de um texto do Espalitando o Dente, em que ele fala que visita à família não pode durar mais do que 20 minutos. Eu entendo isso e concordo em partes. Mas para visitar a biblioteca chamada Seu Vicente tem que ser mais tempo. Tem que ser a vida toda e ainda é pouco. Me lembrei também do livro infinito de Borges. Não seria toda pessoa um livro infinito? As pessoas têm começo e fim, mas o que elas sabem não. Você pode viver mil anos que nunca vai conseguir saber tudo o que outra pessoa sabe. É como querer saber tudo que tem no Google, o verdadeiro.

Tuesday, September 28, 2010

Só enquanto chove

Saiam todos. Não quero ninguém aqui. Entendi o significado da chuva. É hora de ficar só.
Só escutando os pingos batendo contra o vidro. Nem a minha música preferida consegue soar tão linda quanto a chuva à noite.
De dia é muito barulho, mas à noite é uma sinfonia com solos de pneus roçando as poças d'águas do asfalto. Sozinha consigo escutar tudo isso.
Consigo escutar também o meu desejo que me pede para ficar só. Queria ficar assim para sempre. Mas como diz dona Glícia:
- Loucura mesmo é ficar só.

Monday, September 13, 2010

Azul cor de unha

A manhã de céu azul era um convite para sair de casa e fazer uma boa caminhada com a minha irmã. Não andamos nem mais que 200 metros e vimos aquele senhor de cabeça branca sentado no banquinho, olhando fixamente para lagoa. Pensei ter visto meu pai. Chegamos mais perto e era ele mesmo. Pegamos-no de surpresa nos traindo com a tristeza e a solidão.

- O que faz aí, papai?

- Vim pegar um solzinho, tá frio lá em casa - e sorria escondendo a verdade dos seus olhos.

- A lagoa tá feia, não tá?

- Não. Tô achando a vista bonita. Aqui é muito bonito.

- Bem, acho que tem uns lugares melhores, antes das capivaras, vai lá dar uma olhada, agora tenho horário no salão.

- Ah, vai fazer as unhas? e olhou para as minhas mãos pintadas com esmalte azul.

- Aham, vou.

- Passa vermelho dessa vez. Não me entenda mal, eu adoro azul, mas o azul fica mais bonito em outras coisas que não unhas.

- Pode deixar, papai - eu ri - Vou passar um rosa bem feminino, combinado?

Deixei meu pai com a minha irmã e fui ao salão. Quando voltei, os olhos dele brilhavam. Ele tinha conhecido três aeromodelistas e estava impressionando com os pequenos aviões. Já sabia de tudo, das baterias, do peso, do material de que eram feitos. Ele achou incrível que aqueles "brinquedos" pudessem voar. Acho que ele conseguiu voar também. Para bem longe. E quando voltou da pequena viagem, estava melhor. Dava para ver no seu sorriso límpido que não tinha nada a esconder.

Ele precisou de tão pouco. Só de um azul cor de céu.

Monday, August 30, 2010

Café forte pra acordar

Acordou sem saber aonde estava, o que é bastante comum quando se está viajando há muito tempo. Viu os lençóis pretos e ao lado o moço loiro dormindo de boca aberta. Lembrou da noite passada em flashes. As risadas, as piadinhas, as brincadeiras...

Ela mexeu um pouco para que ele se despertasse “naturalmente”.

- Bonjour – disse ele com a voz de sono e os olhos meio fechados. Ele era carioca, mas seu pai, francês. Falava muito bem a língua e ela estava aprendendo, apesar de que, bêbada, falasse melhor.

Ficaram mais um pouco na cama e ela ia lembrando de como tinha sido. A cantada dele, o primeiro beijo...

- Se você quiser pode tomar um banho, pego uma toalha para você...- e interrompeu os pensamentos dela.

- Ah, vou querer sim – ela respondeu imaginando como seria o dia dos dois e tomou banho, explorando os shampoos e os condionadores de marcas que nunca tinha visto em um idioma que não entendia muito bem.

Chegou no quarto enrolada na toalha e ele foi logo lhe avisando:

- Olha, sem querer ser chato mas já sendo, vou ter que te pedir pra sair, porque tenho que trabalhar.

Por essa ela não esperava, vestiu a sua cara de pau e disse:

- Tudo bem, mas e o meu café-da-manhã?
- Sabe o que que é? Não tive tempo de fazer compras essa semana e a minha geladeira está vazia.
- Ah...

Dessa vez vestiu foi a roupa da noite anterior e saiu. Por sorte tinha trazido o mapa do metrô. Andando ao meio dia com aquele salto alto, meia calça preta e vestido ela sentiu uma certa vergonha, pensava se as pessoas achariam que ela era uma puta. Sempre tinha essa sensação quando usava a roupa da noite anterior.

Chegou no metrô. Depois que a ideia de “acham que sou puta ou não?” saiu da sua cabeça pensou na falta de educação do seu anfitrião.

- Porra! Nem um mísero pão de café-da-manhã? O cara me come a noite toda e de manhã não me dá nada pra comer? – o trocadilho era inevitável, mesmo sentindo seu estômago e a sua raiva se corroendo em ácido gástrico.

Depois desse evento, ela se tornou militante do café-da-manhã do dia seguinte. Escreveu um manifesto para todos os seus amigos. Arrumou um bando de pessoas prol do desjejum. E muita gente aderiu à causa.

Passou muito tempo cultivando o ódio contra os desprovidos de geladeira cheia, quando um dia leu no Livro do riso e do esquecimento do Milan Kundera:

“Oh, amantes, sejam prudentes nesses perigosos primeiros dias! Se levarem
para o outro o café-da-manhã na cama, terão de levá-lo para sempre,
se não quiserem ser acusados de desamor e de traição."

Aquela revolta toda contra os desertores da refeição matinal desabou na frente dos seus olhos, porque percebeu que café-da-manhã tinha um significado maior do que a primeira refeição do dia. O desjejum significava afeto, atenção, carinho, algo que um amor fast food não é capaz de dar. Ela estava procurando amor no restaurante errado.

Obviamente, café-da-manhã é de longe um aspecto relevante nessa citação. Existem coisas muito mais importantes, que podem render várias reflexões para outros posts. Mas foram essas linhas que a despertaram, assim como um bom café forte.

Monday, August 16, 2010

Era pra ser melhor

- Eu paro de chorar se você fizer parar de chover.
- Ok. Você venceu. Mandioca frita com carne de sol.

Thursday, August 12, 2010

Para Elizabeth Bishop

Esse é para você. Só você vai entender mesmo. Ainda não sei a “arte” de perder, muito menos a de retribuir em minhas palavras à altura do seu lindo e delicado gesto . Não deve ser nenhum mistério, não é mesmo? Aceite o meu muito obrigada sincero. Quem é você, Elizabeth?

Wednesday, August 11, 2010

Dor de pescoço

Era para doer no peito ou no estômago, mas o que dói mesmo é o pescoço. Nem olhar pro lado ela consegue. Se vira para esquerda ou para direita, o danado do pescoço dói mais ainda. Melhor olhar só para frente por enquanto. O médico falou que passa, nem precisa tomar remédio. Mas como ela é mestre em apressar processos “inapressáveis” toma anti-inflamatórios. Que se danem os efeitos colaterais! Não se dá muito com a dor, ainda mais com essa que não a deixa olhar para os lados.

Sunday, August 1, 2010

Perdão por te profanar, JL.

Borges quase nunca falava de amor, se é que já falou alguma vez. Mas eu, ao contrário não sei falar de outra coisa (pobre ignorante). Não revire em seu túmulo, caro Jorge Luís, mas queria versar sobre algo que você já escreveu adaptando para a (total falta de) razão da minha vida: amar.
Amo como uma imortal, porque sei que o amor é mortal.

Wednesday, July 21, 2010

Violência consentida

Roupas rasgadas, descabelada, os lábios manchados de batom vermelho e o rímel preto que escorrendo dos olhos escurecia ainda mais as minhas olheiras.

- Quem fez isso com você?

- Foi ele, mas eu deixei.

- Não está doendo?

- Está, mas eu já sabia que ia ser assim.

- Não quer prestar queixas?

- Não. O amor é assim mesmo.

Monday, July 19, 2010

Sem julgamento não há culpa

Prefiro pensar que não tenho qualidades, nem defeitos. Apenas características.

Inspirado por Explicação de J.

http://juocaribe.blogspot.com/2010/07/explicacao.html

Sunday, June 27, 2010

(In) definições I

Vazio é aquilo que nasce quando a gente nasce, e morre quando a gente morre.

Friday, June 18, 2010

Corro demais

Falei aquele dia para a gente desalerar. Mas não sei nem parar nos sinais vermelhos. Ando apressada, vivendo todos os dias a véspera da minha morte. Não é culpa sua. Nem minha. É que não sei andar devagar, tentei aprender mas falhei. Talvez o tempo me ensine, ele é bom professor. Enquanto isso, "eu corro demais, corro demais só pra te ver meu bem."*

*Créditos: Rei

Thursday, June 10, 2010

Deixa...

Depois de meses sem notícias dele, ela se pegou pensando naquele nariz. Gostava de narizes esquisitos. Não se lembrava ao certo como ele era, só como se movimentava, tinha um jeito brusco de beija-flor.
Reviu suas fotos. Aqueles momentos congelados por uma digital não eram ele. Não tinham voz, nem cheiro. Por mais que doesse a saudade, não queria se livrar dela. Já vivia com essa nostalgia. A falta dele era agora parte dela. Foi assim que decidiu a não lutar mais contra isso. Não dá para vencer a si mesmo, muito menos com pequenas trapaças.

Tuesday, June 8, 2010

Marés

Na maré mansa, sou fraca
Economizo as minhas forças
Para os dias de ressaca.

Monday, May 31, 2010

Órfã

Estava tão apegada ao livro que começara a ler dois meses antes, que ao chegar ao final, tive que ler os agradecimentos na esperança de prolongar meus últimos momentos com ele.

Fechei a contra capa. Agora olho fixamente para a estante de livros. Dezenas deles me olham de volta esperando a sua vez.

Terminar um livro é morrer um pouco. Não é fácil despedir-se daqueles personagens que passam pelas nossas vidas traduzindo-nos em linhas nunca antes lidas, mas de súbito reconhecidas.

Agora é luto, que passa com outra história para renascer e morrer de novo.

Ps: Obrigada, amigo Tapioca, pelo presente de luto.

Monday, May 17, 2010

Fica a dica

Você mente com a mesma naturalidade com que respira
Como se dependesse disso para viver
Relaxe. Você não vai morrer se disser a verdade
Apenas ganhará alguns e sinceros inimigos.

Tuesday, May 11, 2010

C'est la vie

Fazia sol e embaixo do pé de mexerica havia uma sombra gostosa. Peguei uma toalha velha, meu livro e deitei debaixo da "mexeriqueira". O livro estava bom, mas a grama também. Tão confortável que dormi.

Acordei com o sol queimando meus pés. Estiquei a coluna com preguiça e continuei lá parada, deitada de bruço observando só o que o meu campo de visão permitia.

Primeiro vi uma formiga grande, daquelas de bunda vermelha, ela se aproximava de mim com pressa. Andava desajeitada e feia, contornando a topografia do terreno. Logo depois apareceu um passarinho branco de cabeça preta, tão elegante que parecia dançar balé. Ele dava passos curtos sem perder a postura. Era bom observar aquela ave. Era leve. Acho que poderia ficar lá o dia todo só vendo ele se mover com graça. Depois de alguns minutos de contemplação senti uma picada no pé. A formiga me picou.

Thursday, April 29, 2010

Abaixo a ditatura do final triste

Não sei quando foi secretamente institucionalizado que para um filme ser bom o final tinha que ser triste. Obviamente estou exagerando na frase acima. Mas há tempos que os filmes que fazem chorar ou que mostram a “verdade” sobre a natureza humana são os que mais ganham prêmios em todo mundo.
Famílias desfuncionais, holocausto, guerra, ditadura, traições e doenças terminais são os preferidos de todo e qualquer festival.

Gosto muito destes tipos de filme, antes que me acusem de Poliana. Se a história é bem contada ou tem poesia, para mim está ótimo. Mas nesta busca pelo realismo, ou pela “a vida como ela é” perdeu-se algo muito importante: a vida também pode ser bonita, as pessoas podem ser boas e os finais podem ser felizes.

Um parêntesis: quando falo de final feliz, não me refiro àquela fórmula hollywoodiana de romances e comédias românticas em que o fim é advinhando no início, quiçá no cartaz, tamanha a previsibilidade.Fecha parêntesis.

Claro que o final mor - a morte - é triste. Mas dentro da vida de uma pessoa existem muitos momentos alegres. Como é bom ver um momento desses na tela dentro de uma hora e meia ou mais de duração. Uma história que acaba enquanto os personagens estão bem. Pode até ser que depois dos créditos um personagem traia o outro, ou alguém contraia uma doença fatal. Não quero saber. Quero ir para casa com aquele momento emoldurado em uma hora e meia ou mais de duração.

Escrevi esse texto anterior inspirada pelo último filme que vi: O segredo dos seus olhos, do argentino Juan José Campanella.

Tuesday, April 13, 2010

O vazio existencial entre o almoço e o lanche

Entre 4h e 4h30 ela sempre tem ataque de ansiedade. Bate o pé sentada na cadeira. Olha para o relógio. Vê se tem alguém comendo biscoito ao seu lado. Quer ficar em pé, ir até a cozinha tomar um chá, mas não faz nada disso. Espera 4h31 chegar.

Wednesday, April 7, 2010

Variação das folhas de outono

Minha cabeça transbordava melancolia, estava chegando em casa quando começou a tocar Black Trombone do Serge Gainsbourg no rádio. As notas tristes do trombone sonavam com o meu estado. Escutei prestando atenção em cada acorde e palavra. Black trombone, monotone, c’est l’automne de ma vie. É o outono da minha vida... Não sei o que Gainsbourg quis dizer com isso. Mas me senti dentro do outono da minha vida. Aquela estação fria e desfolhada. Monótona. Monotone. Nunca tinha pensado nessa palavra ali no meio da música. Quando ele a cantava, para mim estava se referindo a um “mono tom”, um som sem variação que saía do Black trombone. Foi aí que percebi a origem de monotonia (da palavra e da minha). E isso serve para o “mono tom” das folhas secas de outono.