Acordou sem saber aonde estava, o que é bastante comum quando se está viajando há muito tempo. Viu os lençóis pretos e ao lado o moço loiro dormindo de boca aberta. Lembrou da noite passada em flashes. As risadas, as piadinhas, as brincadeiras...
Ela mexeu um pouco para que ele se despertasse “naturalmente”.
- Bonjour – disse ele com a voz de sono e os olhos meio fechados. Ele era carioca, mas seu pai, francês. Falava muito bem a língua e ela estava aprendendo, apesar de que, bêbada, falasse melhor.
Ficaram mais um pouco na cama e ela ia lembrando de como tinha sido. A cantada dele, o primeiro beijo...
- Se você quiser pode tomar um banho, pego uma toalha para você...- e interrompeu os pensamentos dela.
- Ah, vou querer sim – ela respondeu imaginando como seria o dia dos dois e tomou banho, explorando os shampoos e os condionadores de marcas que nunca tinha visto em um idioma que não entendia muito bem.
Chegou no quarto enrolada na toalha e ele foi logo lhe avisando:
- Olha, sem querer ser chato mas já sendo, vou ter que te pedir pra sair, porque tenho que trabalhar.
Por essa ela não esperava, vestiu a sua cara de pau e disse:
- Tudo bem, mas e o meu café-da-manhã?
- Sabe o que que é? Não tive tempo de fazer compras essa semana e a minha geladeira está vazia.
- Ah...
Dessa vez vestiu foi a roupa da noite anterior e saiu. Por sorte tinha trazido o mapa do metrô. Andando ao meio dia com aquele salto alto, meia calça preta e vestido ela sentiu uma certa vergonha, pensava se as pessoas achariam que ela era uma puta. Sempre tinha essa sensação quando usava a roupa da noite anterior.
Chegou no metrô. Depois que a ideia de “acham que sou puta ou não?” saiu da sua cabeça pensou na falta de educação do seu anfitrião.
- Porra! Nem um mísero pão de café-da-manhã? O cara me come a noite toda e de manhã não me dá nada pra comer? – o trocadilho era inevitável, mesmo sentindo seu estômago e a sua raiva se corroendo em ácido gástrico.
Depois desse evento, ela se tornou militante do café-da-manhã do dia seguinte. Escreveu um manifesto para todos os seus amigos. Arrumou um bando de pessoas prol do desjejum. E muita gente aderiu à causa.
Passou muito tempo cultivando o ódio contra os desprovidos de geladeira cheia, quando um dia leu no Livro do riso e do esquecimento do Milan Kundera:
“Oh, amantes, sejam prudentes nesses perigosos primeiros dias! Se levarem
para o outro o café-da-manhã na cama, terão de levá-lo para sempre,
se não quiserem ser acusados de desamor e de traição."
Aquela revolta toda contra os desertores da refeição matinal desabou na frente dos seus olhos, porque percebeu que café-da-manhã tinha um significado maior do que a primeira refeição do dia. O desjejum significava afeto, atenção, carinho, algo que um amor fast food não é capaz de dar. Ela estava procurando amor no restaurante errado.
Obviamente, café-da-manhã é de longe um aspecto relevante nessa citação. Existem coisas muito mais importantes, que podem render várias reflexões para outros posts. Mas foram essas linhas que a despertaram, assim como um bom café forte.