Saturday, June 8, 2013

Calada


Tenho um calo na minha garganta de tanto ensaiar em silêncio o que eu quero te falar.

Thursday, March 21, 2013

Deixa estar

Você não existe. Fui eu que inventei. Você me preenche na mesma velocidade que me esvazia. Você sou eu. De costas para mim, sem nunca me olhar. Se olhar vira pedra. Deixa assim como está. Nesse jogo de palavras que me confunde e me alimenta. É só disso que precisamos. Disso e de música.

Monday, December 10, 2012

Coincidências

Nunca consegui escrever ficção. No máximo, verdades ficcionadas. Trabalhando agora em um projeto sobre coincidências, percebi que estas histórias reais parecem mais ficção do que realidade. São momentos que se colidem no nosso cotidiano e acrescentam o prefixo extra nas nossas vidas ordinárias. Estou colecionando coincidências, se você tiver algum caso, envie para este email: coincidenciasaqui@gmail.com. O que eu já colecionei até agora:http://ordinarioextra.tumblr.com/ Colaborem!

Friday, September 14, 2012

Por acaso, a rotina.



Reclamo muito da rotina. Sete da noite só quero ir para casa, comer algo leve, ler ou ver um filme e dormir cedo. Mas tem a pós. Chego em casa às onze, demoro para pegar no sono e vou atrasando minhas  leituras e filmes.

Quinta saí do trabalho às sete em ponto como de costume. Não tinha pós. Me bateu um vazio, queria seguir o caminho que estava acostumada. Quase chegando em casa, mudei a direção do carro. Rumei de encontro ao acaso. Quis parar em um lugar e esperar algo acontecer. Parei em um café, pedi o de sempre, mas haviam mudado o cardápio. Me sugeriram o kebap de frango, novidade do chef. Porque não? Sem sal. Continuei vazia, querendo algo doce.

Continuei lá mais um tempo, lendo o livro de entrevistas que comprei por engano achando que eram contos. Estava até interessante. Depois de umas  cinco entrevistas, olhei em volta: casais mornos se enchendo de talharim. Coloquei o livro dentro da bolsa, paguei a conta e saí. Nada me aconteceu. O acaso não gosta de ser caçado, ele gosta é da rotina.

Wednesday, January 25, 2012

A leveza do perdão.


Já faz um tempo que venho tentando, sem muito resultado, levar a vida menos a sério. E hoje vi uma cena genial. Em um concerto de música clássica na Eslováquia um jovem judeu ortodoxo tocava seu violino quando foi interrompido por um celular, aquele famoso Nokia tune. Ao invés de esbravejar como imaginamos que um músico clássico faria, ele tocou o Nokia tune com seu violino lindamente. A plateia deu gargalhadas e apladiu. Esse acaso tornou o momento único e belo. Foi também a quebra da expectativa de que um músico erudito e judeu ortodoxo seja alguém extremamente sério. Ele se mostrou uma pessoa leve e soube perdoar com graça a falha humana. 

O vídeo:



Obrigada, Douglas, pelo vídeo.

Thursday, December 15, 2011

Tá na cara, tá no nome.

Não era beleza, não sei o que era tão cativante nela. Os pés de galinha ao lado dos olhos eram mais marcas de experiência do que sinais de idade. Não parecia se preocupar com anti-rugas. Ela me lembrava uma mulher de Almodóvar, tinha algo de dramático no olhar, era forte. Sempre com aquele sorriso solícito mas espontâneo. Trabalhava em um restaurante em Montevidéo. Passei uma tarde deliciosa neste lugar com minha irmã. Depois de ser tão bem atendida, perguntei seu nome. Ela me respondeu:

- Ana, mi amor. Cortita como la vida.*



* Ana, meu amor, curta como a vida.



Wednesday, November 23, 2011

Minha leitura


Em um livro autobiográfico da Marguerite Duras, ela disse que não conseguia escrever quando estava com um homem. Precisava da solidão. Fiquei pensando nisso. Porque seria? Poderia ser que se sentisse intimidada, ou talvez, estar junto a alguém não deixasse espaço para pensar em assuntos mais intimistas. Outro dia minha cabeça voltou a esse assunto: ela não queria era revelar seus segredos. Escrever também é uma forma de se mostrar, e será que a gente quer se despir demais para os nossos amantes? Prefiro o mistério.

Ah, o livro se chama Escrever.

Wednesday, October 26, 2011

Friday, July 8, 2011

Apenas uma fotografia

Era uma garotinha engraçada, magrinha de pernas grossas. Devia ter seus dois anos. Vestia uma blusa branca com listas vermelhas bem a moda marinheiro e uma margarida enfeitava seus cabelos curtinhos. Sentada a uma mesa de um caramachão de um bar e segurada pelo pai para não perder o equilíbrio, ela ouvia as músicas que tocavam no rádio e advinhava em seguida quem estava cantando. Nem falava direito, a menininha, mas sabia dizer Roberto Carlos, Rita Lee, Maria Bethânia, Milton Nascimento. Com Gal Costa ela ria mais e acho que batia palmas, se não me falha a memoria. Curiosos como eu nos amontoávamos perto da mesa para ver a prodígio. Era coisa boa de se ver. O pai estava todo orgulhoso. Toda vez que ela acertava, soltava uma gargalhada. Parecia treinada, mas não. Apenas fechava os olhinhos, balançava a cabeça e sentia a música.

Monday, April 11, 2011

SMS

- Tô sentindo um aperto no coração de ficar longe de você... mas pode ser fome também.

Tuesday, February 8, 2011

Beleza e/ou amor

Não entendia muito bem quando meu amigo Juan, na época estudante de Filosofia, dizia com seu jeito dramático e professoral que só a beleza (ele não falava arte, metido!) redimiria os homens. Ele, que era religioso (uma contradição ambulante), falava que nem a religião seria capaz de tanto.

Eu já dizia que isso seria papel do amor. Talvez pareça uma visão um pouco religiosa, mas não era disso que eu estava falando. Não era o amor e a fé em Deus. Era o amor aos outros mesmo.

Mas outro dia eu tive uma experiência que uniu amor e arte. Era mais uma segunda-feira deprimente, aqueles dias que a gente custa a sair da cama para encarar a vida. Cancelei meu pilates na hora do almoço e ia ficar na agência enconstada em algum canto para fugir da realidade no meu sono.

Minha amiga e colega de trabalho, Elisa, reclamou sobre os 14 reais que teria que pagar na locadora por um filme que não tinha visto. Era A Single Man do Tom Ford que foi desgraçadamente traduzido como “Direito de amar”.

- A gente tem duas horas de almoço, Elisa. Vamos ver agora no computador?

Fiquei surpresa. Que filme lindo, sensível! Na minha visão o filme falava justamente como o amor (lato sensu) poderia “salvar”, no caso, um homem da sua ruína. Pode parecer clichê, mas não é. O filme possui cores lavadas e pastéis, mas toda vez que o homem vivenciava uma experiência que envolvesse amor, seja o contato uma amiga, ou o carinho de uma menininha, as cores se esquentavam e ficavam fortes e pulsantes.

O personagem consegue enfrentar a sua solidão e, parece-me, encarar o mundo por causa desse amor a outro ser-humano. E eu consegui encarar a minha segunda-feira graças à arte, ou como diria Juan, à beleza.

ps: O final do filme não é tão previsível assim não, tá? Assistam!

ps: Direito de amar? PQP para essas distribuidoras de filmes brasileiras!

Monday, January 31, 2011

Desafiando a falta de inspiração

Estou bloqueada. Janeiro passou e nada. Tentei escrever várias vezes, mas chegava no meio e não conseguia ir até final. Perguntaram se era felicidade demais. Em partes sim. Tive um fim de ano maravilhoso, estou cada vez mais próxima dos meus amigos e o coração está se ajeitando também. Nada de dramas para despejar em um arquivo em branco.

Pensando bem, ficar sem escrever é um tipo de drama, ou pelo menos é algo que me deixa insatisfeita. É como parar de correr, ou sair da dieta, abandonar o piano. É o meu problema em ir até o final. Porque escrever, além de ser uma forma de me expressar e me conhecer melhor é uma maneira de me aprofundar no exercício da escrita e descobrir a quais caminhos ela pode me levar, o que tem sido muito bom até agora.

Quem sabe se dessa vez eu não passo do enigmático meio que sempre vira final antes da hora?

Wednesday, December 22, 2010

Marguerite Duras

Ganhei um livro de uma amiga muito especial: Olhos azuis cabelos pretos da Marguerite Duras. Ainda estou lendo, sou lenta mesmo.

Na dedicatória minha amiga Lenise citou uma frase da Marguerite: "Não existe nada mais público que aquilo que é rigorosamente pessoal".

Valeu, Lerê!

Assinaturas

Eram dois livros iguais na estante. Um pertenceu ao meu pai e o outro a minha mãe. O que foi do meu pai estava mais gasto. O da minha mãe, estava melhor, para um livro que era de 74. Levei-o para ler no avião. Eram pequenos contos, ideal para uma viagem rápida. Ao abrir o livro lá estava ela: perfeita, rígida, firme, opressora, a assinatura da minha mãe. Sempre tive medo da letra dela. Letra de professora. Letra do tipo mais rigososo de professora: da mãe-professora. Até hoje quando vejo a letra perfeita em recados na geladeira sinto um pequeno temor da infância me rodeando como um fantasma que mesmo morto tem existência.

Pego agora o livro do meu pai e lá está seu nome assinado. Vejo a delicadeza, era como se ele estivesse escrito à pluma. De tão leve, a caneta bic quase fica apagada. Ele não usa força para escrever, nem para viver. Não é uma letra bonita como a da minha mãe, mas é macia. A ausência de rigidez a deixa leve, flutuando na página, ao contrário da assinatura da minha mãe, que está cravada no livro e em mim.

Tuesday, November 30, 2010

Vinho, kanji e telhado

Ou foi o vinho ou foi a companhia dele que me deixou tão relaxada como naquela noite. Não sou muito de tagarelar, mas algum dos componentes acima fez com que eu falasse sem parar. Ele só fazia perguntas e me ouvia com atenção, acho que isso me encorajava ainda mais a falar e falar.

Também não me recordo como chegamos ao assunto Japão. Ele deve ter me perguntado sobre os alfabetos. Eu havia morado em Tóquio por um ano - de intercâmbio - e ainda lembrava como escrever uma coisa ou outra em Kanji (aquele alfabeto que parece desenho).

Os desenhos, na verdade, são símbolos que representam uma ideia. Escrevi amor em kanji para ele. Foi quando me lembrei da minha professora de japonês, Kawamura sensei.

Ela era a enfermeira do colégio em que eu estudava. Sempre me observava pelos cantos com olheiras e muito sonolenta. Então um dia ela me perguntou bem incisiva:

- E essas olheiras? Você dorme tarde ou usa drogas?

Achei engraçado e expliquei:

- O sono é porque eu não entendo japonês nas aulas, aí tenho vontade de dormir. As olheiras são herança da família italiana da minha mãe.

Ela sorriu e prometeu que iria me ajudar com o japonês. Conversou com meus professores, com o diretor do colégio e remodelou toda a minha grade.

Lembro da Kawamura sensei me “alfabetizando”.

- Tá vendo esse sinal que parece um telhado e fica sempre em cima do Kanji? Isso significa proteção. Escreva-o cem vezes para não esquecer e depois me mostra aqui.

- Assim tá bom, sensei?

- Ótimo, Carina-chan!

Esse tal telhado ficou escondido em algum canto da minha memória, mas não é que reapareceu aquela noite? Quando escrevi amor para ele, notei que o telhado protegia outro símbolo, o do coração.

Todo japonês deve saber disso, mas fui perceber só 13 anos depois que amor é o coração protegido.

Wednesday, November 17, 2010

Vestindo a camisa

Há cinco anos eu abasteço o carro no mesmo posto. Já conheço todos os frentistas. Aquele moreninho de boné e olhar tímido era novo. Pelo nervosismo dele, devia ser o primeiro dia.
- Bom dia, dona, é... vai ser o que? – falou olhando pra baixo
- Bom dia! Gasolina comum. Pode completar.
- É... cartão ou dinheiro?
- Cartão.
- Confere na bomba então, dona.
Ele foi pegar a máquina de passar cartão e voltou com uma nova, toda modernosa, devia ser dessas Cielo.
- Nossa, que máquina linda! Muito chique, hein, menino?
O frentista continou olhando pra baixo mas sorria orgulhoso. Ele disse na maior inocência:
- Ô dona, muito obrigado.
Foi seu primeiro elogio no trabalho novo.

Friday, November 5, 2010

Ao meu alcance

Nem é por querer. Às vezes a minha unha quebra do lado bem embaixo, aí eu puxo a ponta pra fora com os dentes. O dedo fica na carne viva. Até chega a sangrar. Dói, fica latejando, mas é uma dor que eu gosto. Parece que meu coração fica batendo na pontinha do dedo.

Monday, October 25, 2010

Mágoas são para humanos

Sabe o que foi lindo mesmo?

Foi o dia em que eu pisei na patinha do meu cachorro.

Explicando-me melhor: Veludo, o cão em questão era apenas um filhote de 2 meses. Estava lá em casa há 3 semanas e andava atrás de todo mundo. Atrás mesmo. Tinha que ter cuidado pra não pisar no pobrezinho. Ele ainda estava na fase de chorar a noite: "cadê a minha mãe"? E se sentia mais seguro quando esses bípedes que não latem e nem se cheiram estavam por perto. Por isso ele andava colado na gente.

Um dia me descuidei e pisei sem querer naquela patinha minúscula. Foi um aperto no meu coração seguido de um berro do Veludo e uma mordida no meu pé. Mordida forte, que claro que não doeu como a pisada, o Veludo nem dente direito tinha. Mas dava pra sentir a indignação dele. Instintiva ou não, preferi entender a atitude do filhote de daschund como sinal de maturidade. Como se ele me disesse, "você pisou no meu calo (literalmente), vamos resolver agora", tanto é que depois da mordida, ele já era todo amores de novo, só que nunca mais andou atrás de mim.

Voilà

Atendendo a pedidos, aqui vai o link de álbuns franceses.

http://www.taringa.net/posts/musica/2413565/Megapost-Musica-en-Frances-Segunda-Parte.html

Tem muita coisa ruim, mas tem coisas ótimas também. :)

Bisous.

Thursday, October 7, 2010

My personal google

Seu Vicente nunca quis aprender a mexer no computador. “Nunca quis” é meio exagero, porque ele tentou muitas vezes e desistiu. Ele até sabe usar um pouco o Google maps, ferramenta que achou interessantíssima por sinal.

Sempre falo com ele, olha no Google, papai. Sei lá se ele olha ou não, o fato é que o Seu Vicente é um Google espontâneo, muito confiável, e muito mais simpático. Espontâneo porque me passa informações sem que eu esteja procurando, e não são poucas. Confiável, porque aquele lá não tem nada de wikipedia, fala e cita as fontes. Simpático porque... já pensou em conversar com o Google?

- E aí, Google, beleza? Nossa, cara, tô precisando saber umas coisinhas...

- Fala, Carina, como é que você tá hoje? Resolveu aqueles problemas?

Ok, acredito que haveria pessoas que não gostariam de um Google conversador, mas tudo bem. Eu sou meio carente, gosto que conversem comigo e perguntem da minha vida.

Voltando ao meu pai (dos burros), hoje de manhã, enquanto eu comia, falávamos um pouco de portunhol, frantuguês e italiguês como de costume, aí ele me ensinou uma coisa que pode ser completamente desnecessária para minha vida, mas que eu gostei tanto de saber!
Quase todas as palavras começadas com Al e algumas com A da língua portuguesa vêm do árabe! Olha que interessante. Aí, claro, eu tive que testá-lo.

- Álcool? Alfinete? Albergue? Alcova? Almoço? Alface? Almeirão? Almoxarifado? Alcaparra? Alcade? Almofada? Alpargatas? Alpendre? Arroz? Açúcar? Azeitona? etc? Almirante? – Essa ele não tinha certeza, abacate também ele não sabia (vou olhar no Google depois).
Enfim, falei tanta palavra começada com A que cheguei atrasada no trabalho como de costume.

Depois disso fiquei pensando como é bom ter esse Google em casa. Lembrei de um texto do Espalitando o Dente, em que ele fala que visita à família não pode durar mais do que 20 minutos. Eu entendo isso e concordo em partes. Mas para visitar a biblioteca chamada Seu Vicente tem que ser mais tempo. Tem que ser a vida toda e ainda é pouco. Me lembrei também do livro infinito de Borges. Não seria toda pessoa um livro infinito? As pessoas têm começo e fim, mas o que elas sabem não. Você pode viver mil anos que nunca vai conseguir saber tudo o que outra pessoa sabe. É como querer saber tudo que tem no Google, o verdadeiro.