Lá pelas tantas na boate, já bêbada de tanta cerveja, andava sorumbática, até que seu amigo gay a alertou:
- Olha o gatinho ali, e é HT, viu menina?
Aproveitou da sua
borrachera para dar um oi.
- Oi!
- Oi!
Ela saiu fora, ele a puxou pelo braço:
-Volta aqui.
E muitos blá blá blás depois, ficaram.
Bêbada, ela ficava atirada, e ele encantador, ou talvez fosse só uma ilusão de álccol.
- Vamos lá pra casa?
- Onde você mora?
- Aqui perto, num condomínio em Nova Lima.
- Ah, será? Você tem computador lá? Só vou se você deixar eu te mostrar uma música do meu mp3 player.
- Tenho um som lá. Serve?
- Mas toca mp3?
- É... não sei, a gente pode tentar.
- Ok.
- Vamos no meu carro?
- Não, prefiro ir no meu.
E ela foi seguindo o rapaz.
Chegaram na casa, que mais parecia uma casa de campo com quadras, piscina e nenhum móvel, só uma cama box de casal.
- Você mora aqui?
- Não, na verdade, essa é a casa de campo dos meus pais.
- Hum...
O som era daqueles microsystems velhos, que nunca teria uma entrada USB.
Na falta de música, foram para o único móvel da casa e lá permaneceram a noite toda.
De manhã acordaram e conversavam coisas banais e engraçadas. Até que ouviram barulhos pela casa:
- Parece que não estamos sozinhos.
- Putz, são os meus pais!
- Mas eles são tranquilos?
- Não. Nenhum pouco.
- Ai que vergonha! Vou pular a janela.
- Se quiser eu trago seu carro pra cá, você faria isso por mim?
- Acho que sim, essa situação seria embaraçosa, né?
- Sim, muito.
Beijou-a novamente e perguntou:
- Você tem namorado?
- Não, por quê? Você tem namorada?
- Tenho.
Ela tentou fingir a cara de surpresa, mas não se sabe se conseguiu.
- Ah é? E namoram há muito tempo?
- 3 meses.
- E cadê ela?
- Deixei ela em casa e saí. Muito chata. Muito carente.
- Hum.. Aqui, já tá ficando tarde, melhor eu ir embora.
- Ok. Vou trazer seu carro pra perto da janela, tá?
- Ah não, pode deixar. Vou pela porta da frente mesmo.
- Tem certeza? E os meus pais?
- Tem problema não, querido. Vou adorar conhecê-los.
Ela vestiu a roupa da noite anterior, arrumou a maquiagem e saiu se sentindo poderosa.
Os pais do garotinho estavam cozinhando o almoço.
Ela foi até a mãe, se apresentou, deu um beijo e um abraço.
- Almoça com a gente hoje - convidou a mãe.
- Não mãe, ela tem compromisso.
- É, hoje eu tenho compromisso, mas fica para próxima. A propósito, o seu jardim está muito bem cuidado.
- Obrigada - a mãe sorriu orgulhosa.
O pai do garotinho olhava aquela cena com a cara mais constrangedora do universo, como se já tivesse passado por algo semelhante, e não foi tão receptivo com a garota petulante, mas mesmo assim, ela não se deu por vencida, foi até o velho babão e o cumprimentou com um dos seus sorrisos mais cativantes e irônicos, claro. Ela estava se divertindo.
O menino de 30 anos a levou até o carro.
- Você tem meu telefone. Pode me ligar.
- Ah, mas que bom que eu posso. Obrigada, pode esperar.
E despediu do bebezinho com um beijão que constrangeu aquele almoço de domingo.
Entrou no carro, apagou o telefone do bebezinho, ligou o som no talo e ouviu sozinha a música que tanto queria ouvir na noite passada. Chegou a uma conclusão: música boa não é para qualquer um.