Isso também é velho, já tem 3 anos. E não é que a profecia se cumpriu?
A casa abandonada dos meus pensamentos. Como uma onda me invade e se explode em choro. Um choro porque não cabiam palavras. Não se explica lágrimas. Elas apenas são. Agora sei que não quero voltar àquele lugar. Uma casa assombrada na memória que ainda pesa, mas vai se tornar balão.
Tuesday, January 20, 2009
Malditas músicas italianas
Escrevi isso há uns dois anos no blog de um amigo. Achei oportuno postar aqui de novo.
Há uns 2 meses estou igual louca tentando baixar umas músicas italianas dos anos 60 no Emule. Umas bem românticas. É engraçado, porque quando eu tinha 10 anos, viajei para a Pousada do Rio Quente com a minha família. Meu pai tinha uma Belina azul claro metálico, com aquele senhor porta malas, o chiqueirinho. Ele mandou fazer um colchão do mesmo formato pra meus irmãos e eu irmos deitados nas 10 horas de viagem.
O pessoal lá de casa sempre gostou muito de música, mas fomos despreparados pra viagem, levei uma fita cassete de alguma novela nacional da Globo – sim, eu era noveleira e comprava tudo quanto é trilha sonora. Minha mãe levou uma fita de músicas italianas (que na época eu achava que era francês). E fomos assim, 10 horas de viagem revesando as fitas. Na hora da música da minha mãe, a macacada (como meu pai chamava meus irmãos e eu) ficava reclamando, a gente torcia pra minha fita começar logo. Imitávamos o “francês” , zombando da minha mãe e essas coisas que crianças endiabradas adoram fazer. As músicas da minha mãe nunca saíram da minha cabeça.
17 anos depois, ouço essas canções e sinto algo tão bom, tão carregado de emoções e não sei se é pela lembrança da macacada no porta-malas acolchoado, ou se é porque agora entendo melhor as músicas, ou ainda, por que agora me entendo melhor. São músicas românticas demais, e é assim que eu sou: romântica demais. É um lado que tento negar tanto agora que o mundo é pragmático, os relacionamentos são superficiais e as pessoas são individualistas e egoístas. Não vou negar mais não. Sei que alguém ainda vai curtir Il cielo in una Stanza comigo, afinal românticos acreditam em finais felizes.
Há uns 2 meses estou igual louca tentando baixar umas músicas italianas dos anos 60 no Emule. Umas bem românticas. É engraçado, porque quando eu tinha 10 anos, viajei para a Pousada do Rio Quente com a minha família. Meu pai tinha uma Belina azul claro metálico, com aquele senhor porta malas, o chiqueirinho. Ele mandou fazer um colchão do mesmo formato pra meus irmãos e eu irmos deitados nas 10 horas de viagem.
O pessoal lá de casa sempre gostou muito de música, mas fomos despreparados pra viagem, levei uma fita cassete de alguma novela nacional da Globo – sim, eu era noveleira e comprava tudo quanto é trilha sonora. Minha mãe levou uma fita de músicas italianas (que na época eu achava que era francês). E fomos assim, 10 horas de viagem revesando as fitas. Na hora da música da minha mãe, a macacada (como meu pai chamava meus irmãos e eu) ficava reclamando, a gente torcia pra minha fita começar logo. Imitávamos o “francês” , zombando da minha mãe e essas coisas que crianças endiabradas adoram fazer. As músicas da minha mãe nunca saíram da minha cabeça.
17 anos depois, ouço essas canções e sinto algo tão bom, tão carregado de emoções e não sei se é pela lembrança da macacada no porta-malas acolchoado, ou se é porque agora entendo melhor as músicas, ou ainda, por que agora me entendo melhor. São músicas românticas demais, e é assim que eu sou: romântica demais. É um lado que tento negar tanto agora que o mundo é pragmático, os relacionamentos são superficiais e as pessoas são individualistas e egoístas. Não vou negar mais não. Sei que alguém ainda vai curtir Il cielo in una Stanza comigo, afinal românticos acreditam em finais felizes.
Café Latinita
Este conto é muito significativo pra mim. É de Andrew Talbot, um escritor inglês que conheci em Buenos Aires na noite do Reveillon, uma pessoa muito especial.
Café Latinita does not stand out. And nor should it; cafés like this hang on every corner in Buenos Aires: a selection of white plastic tables covered in white table cloths surrounded by short deckchairs all glowing empty at 5pm whilst inside old men huddle individually over the sport section of evening papers and the waiters lean on the bar chatting passionately about something that does not matter at all.
I take my usual seat and wait for Alex, the waiter, my friend. I have been coming to this restaurant everyday since I arrived, over three months now, and it feels to me more homely than my rented apartment. On the table I lay my normal belongings; a cracked and scratched mobile phone that rings maybe once a week but never when it is near me, a packet of Camel Blues - one of its cigarettes turned up and therefore made lucky (I love irony more than I love anything else) – a half read novel I have read before (this week it is Kundera’s ‘Immortality’) and a disposable lighter that has been almost empty all week. Although I have had this paradisiacal setting almost every day and I soon took it for granted, there was something different about today, something even closer to perfection. The hot air had ceased suffocating the city and a weak breeze brushed the street; traffic had become strangely thin; numerous beautiful women stalked the shopping arcade, one of which had even given me an uncommon look of surprised attraction: yes, it was a good day to be me.
Alex and I, in my slow and repetitive Spanish, have had and keep having the same conversation everyday. He is over sixty with rich grey hair that softly falls from the middle of his head to below his ears, an elegant man who moves with smooth accuracy and always gives me a smile of genuine, although sometimes puzzled, affection. The conversation goes like this:
Alex: Andres, how are you?
Andrew: Alex, everything is good, and you?
Alex: Perfect! Is it too hot for you Englishman?
Andrew: No, never! But do you have a cold beer?
Alex: Cold? It is frozen!
Andrew: Perfect, one frozen beer please and the menu (although I already know what I will have.)
Alex: Of course, sir.
As he returns into the cool dark of the café’s insides, I breath out a full breathe and look at the main street one block away: to my minor surprise I see the woman who served me at the post office this morning cross the street in a mild rush, perhaps anxious to get home to waiting children, or a cooling shower, or just not to crushed flat by the oncoming traffic. These insignificant links in life’s tapestry is one of my chief joys; the little coincidences only I see and when expressed to anyone else would seem paltry and dull. To me, however, they are fascinating.
Alex returns with my beer and the ashtray he knows I would ask for. I give the menu a quick, fake look, just to make sure they haven’t added or subtracted anything, something they haven’t done since the restaurant opened over fifty years ago.
Andrew: I’ll have the ricotta cannelloni with the Bolognese sauce, please?
Alex: A wonderful choice, sir. You know all the pasta and sauces are made right here in the morning? (Yes, primarily because he tells me this everyday and it is one of the reasons I give the owner the majority of my money.)
Andrew: Yes, thank you.
Alex: Did you watch the Boca game last night?
Andrew: Of course! (Although I didn’t and rarely do, but always read up on the results for this precise occasion.)
Alex: Ah, it is too bad!
Andrew: Yes, they miss Gago, no?
Alex: Yes, he is a great player, and Real (Madrid) do not use him. It is too bad! (And with the look of a man who has just remembered in aching lucidity the first time he made love to his first love, he returns inside to pass on my order.)
I lean back, satisfied with another successful conversation in Spanish (although if he had varied even slightly off the script I would have been sent flying to my dictionary) and I see what I can see; the harsh sunshine streaming onto the pavement floor, the pot plants waving at each other in the weak wind, the dozens of women carrying shopping bags walking in front of their men who no doubt would have given a kidney to swap places with me rather than be taken to another clothes store (shopping in Buenos Aires is a daily religion). Briefly, my mind remembers my ex-girlfriend, wondered what she would have ordered, what she would have said. A Danish beauty with a five word name whose brutally humorous impression of my British accent – with a torrent of R’s after every shotgun barrelled vowel – never failed to make me smile, even when, as per usual, she was driving me crazy. Then she is gone and I am glad she is not here, monopolising the conversation with Alex in her perfect dialectic Spanish, leaving me to pretend to read the blurb of my book with sudden unexpected interest until he walks away, giving me a quick smile that says at the same time “Women! They talk like a river runs!” and “If you got your nose out of your fancy novels and studied that book of Spanish verbs we could have a proper chat for once!” Or something like that.
It is then that thoughts of the future, both of fear and freedom, rise within me. In a week my time here will end and I will move to Brazil, to Sao Paolo of all places, to become a stranger in a strange land once again. I find it remarkable that all the things I thought I had to do in my youth, now that I have done them, did not need to be done, and have brought with them few epiphanies and little clarity. Of course they had to be done, or I would be still dreaming of them but without the opportunities to do anything about solving them, a far worse situation. But I am hopeful for Brazil, if only to meet again one of the few women who have come close to the person I have been dreaming of for my last ten years, since women entered my head and refused to leave. Deep down I realise that we will never meet again but that does not stop my mind picturing her in front of me now, imagining a funny argument we might have as I watch her hair dance in the air. I return to Kundera.
Alex returns with my food and it is as good as I hoped it would be, as good as it was yesterday. He is a very proud man, like all Argentineans, and delighted that a man from as far away as England is so taken with the food he serves. While I eat he watches me from the corner of his eyes, desperate to talk to me about his beloved Boca Juniors even though I would only understand a small percentage of his words, would only ever be able to agree.
When I have finished my food, smoked a celebratory cigarette and have generously tipped him – a whopping two pounds - I sit back in my chair and take a moment before walking the two minutes back to my - thank God - air-conditioned apartment and almost finished novel that has been almost finished for over five weeks now. I think that when I leave I will miss Alex and Café Latinita more than anything else in Buenos Aires; more than the constant sunshine and conveyor belt of beautiful women, more than the afternoon naps and all night parties, more than the people I have met, more than the woman who became my girlfriend.
Walking home I stop and look at the table where I had eaten: my once cold beer stands empty next to the crowded ashtray and half full basket of fresh bread, my chair at an angle to the table, as if someone was soon to return to their seat. And then I realise I will never come here again.
Café Latinita does not stand out. And nor should it; cafés like this hang on every corner in Buenos Aires: a selection of white plastic tables covered in white table cloths surrounded by short deckchairs all glowing empty at 5pm whilst inside old men huddle individually over the sport section of evening papers and the waiters lean on the bar chatting passionately about something that does not matter at all.
I take my usual seat and wait for Alex, the waiter, my friend. I have been coming to this restaurant everyday since I arrived, over three months now, and it feels to me more homely than my rented apartment. On the table I lay my normal belongings; a cracked and scratched mobile phone that rings maybe once a week but never when it is near me, a packet of Camel Blues - one of its cigarettes turned up and therefore made lucky (I love irony more than I love anything else) – a half read novel I have read before (this week it is Kundera’s ‘Immortality’) and a disposable lighter that has been almost empty all week. Although I have had this paradisiacal setting almost every day and I soon took it for granted, there was something different about today, something even closer to perfection. The hot air had ceased suffocating the city and a weak breeze brushed the street; traffic had become strangely thin; numerous beautiful women stalked the shopping arcade, one of which had even given me an uncommon look of surprised attraction: yes, it was a good day to be me.
Alex and I, in my slow and repetitive Spanish, have had and keep having the same conversation everyday. He is over sixty with rich grey hair that softly falls from the middle of his head to below his ears, an elegant man who moves with smooth accuracy and always gives me a smile of genuine, although sometimes puzzled, affection. The conversation goes like this:
Alex: Andres, how are you?
Andrew: Alex, everything is good, and you?
Alex: Perfect! Is it too hot for you Englishman?
Andrew: No, never! But do you have a cold beer?
Alex: Cold? It is frozen!
Andrew: Perfect, one frozen beer please and the menu (although I already know what I will have.)
Alex: Of course, sir.
As he returns into the cool dark of the café’s insides, I breath out a full breathe and look at the main street one block away: to my minor surprise I see the woman who served me at the post office this morning cross the street in a mild rush, perhaps anxious to get home to waiting children, or a cooling shower, or just not to crushed flat by the oncoming traffic. These insignificant links in life’s tapestry is one of my chief joys; the little coincidences only I see and when expressed to anyone else would seem paltry and dull. To me, however, they are fascinating.
Alex returns with my beer and the ashtray he knows I would ask for. I give the menu a quick, fake look, just to make sure they haven’t added or subtracted anything, something they haven’t done since the restaurant opened over fifty years ago.
Andrew: I’ll have the ricotta cannelloni with the Bolognese sauce, please?
Alex: A wonderful choice, sir. You know all the pasta and sauces are made right here in the morning? (Yes, primarily because he tells me this everyday and it is one of the reasons I give the owner the majority of my money.)
Andrew: Yes, thank you.
Alex: Did you watch the Boca game last night?
Andrew: Of course! (Although I didn’t and rarely do, but always read up on the results for this precise occasion.)
Alex: Ah, it is too bad!
Andrew: Yes, they miss Gago, no?
Alex: Yes, he is a great player, and Real (Madrid) do not use him. It is too bad! (And with the look of a man who has just remembered in aching lucidity the first time he made love to his first love, he returns inside to pass on my order.)
I lean back, satisfied with another successful conversation in Spanish (although if he had varied even slightly off the script I would have been sent flying to my dictionary) and I see what I can see; the harsh sunshine streaming onto the pavement floor, the pot plants waving at each other in the weak wind, the dozens of women carrying shopping bags walking in front of their men who no doubt would have given a kidney to swap places with me rather than be taken to another clothes store (shopping in Buenos Aires is a daily religion). Briefly, my mind remembers my ex-girlfriend, wondered what she would have ordered, what she would have said. A Danish beauty with a five word name whose brutally humorous impression of my British accent – with a torrent of R’s after every shotgun barrelled vowel – never failed to make me smile, even when, as per usual, she was driving me crazy. Then she is gone and I am glad she is not here, monopolising the conversation with Alex in her perfect dialectic Spanish, leaving me to pretend to read the blurb of my book with sudden unexpected interest until he walks away, giving me a quick smile that says at the same time “Women! They talk like a river runs!” and “If you got your nose out of your fancy novels and studied that book of Spanish verbs we could have a proper chat for once!” Or something like that.
It is then that thoughts of the future, both of fear and freedom, rise within me. In a week my time here will end and I will move to Brazil, to Sao Paolo of all places, to become a stranger in a strange land once again. I find it remarkable that all the things I thought I had to do in my youth, now that I have done them, did not need to be done, and have brought with them few epiphanies and little clarity. Of course they had to be done, or I would be still dreaming of them but without the opportunities to do anything about solving them, a far worse situation. But I am hopeful for Brazil, if only to meet again one of the few women who have come close to the person I have been dreaming of for my last ten years, since women entered my head and refused to leave. Deep down I realise that we will never meet again but that does not stop my mind picturing her in front of me now, imagining a funny argument we might have as I watch her hair dance in the air. I return to Kundera.
Alex returns with my food and it is as good as I hoped it would be, as good as it was yesterday. He is a very proud man, like all Argentineans, and delighted that a man from as far away as England is so taken with the food he serves. While I eat he watches me from the corner of his eyes, desperate to talk to me about his beloved Boca Juniors even though I would only understand a small percentage of his words, would only ever be able to agree.
When I have finished my food, smoked a celebratory cigarette and have generously tipped him – a whopping two pounds - I sit back in my chair and take a moment before walking the two minutes back to my - thank God - air-conditioned apartment and almost finished novel that has been almost finished for over five weeks now. I think that when I leave I will miss Alex and Café Latinita more than anything else in Buenos Aires; more than the constant sunshine and conveyor belt of beautiful women, more than the afternoon naps and all night parties, more than the people I have met, more than the woman who became my girlfriend.
Walking home I stop and look at the table where I had eaten: my once cold beer stands empty next to the crowded ashtray and half full basket of fresh bread, my chair at an angle to the table, as if someone was soon to return to their seat. And then I realise I will never come here again.
Elle sait (para Ju e Danilo)
“Você sempre pensou que, em matéria de amor, não amar demais era um meio seguro de ser amado. E você se enganou, meu pobre Federico.” Enrique Vila-Matas
Beatriz não conseguia ficar triste, talvez ficasse um pouco aérea. Não sabia se era o remédio que tomava para a ansiedade ou se era a sua maturidade dando sinais de existência. Será que o tempo a endureceu? Se fosse há um ano ela se veria envolta a uma poça de lágrimas e se fecharia para tudo. Sozinha com seus livros e filmes esperando a dor passar.
Ultimamente ela parece saber o que quer. Estranho - ontem quando conversava com uma amiga que há tempos não via, alguma coisa estalou e depois ecoou em sua cabeça. “Sabe, Beatriz, quando a gente sabe o que quer tudo muda.”
E não é que mudou e ela nem tinha dado conta disso? Não dá para saber tudo, mas ela já sabe algumas poucas coisas que quer.
Porque é tão difícil saber o que quer? Parece que nós desviamos do verdadeiro desejo e colocamos uma lista de coisas materiais e impossíveis na frente. Beatriz costumava fazer listas: um jeans, um tênis colorido, blusas, livros, vestido tomara-que-caia, vestido estampado, saia no joelho, saia na coxa, namorado bonito, inteligente e rico, começar dieta, entrar para a academia, perder dois quilos, mudar de emprego, mudar de profissão, mudar de país, mudar.
Quem tem tempo (e espaço) para pensar no desejo mais íntimo com tanta besteira na frente? Há um mês economizando dinheiro para uma viagem que ela verdadeiramente quer, Beatriz está descobrindo os prazeres gratuitos e toda essa simplicidade a coloca em contato com ela mesma. O muro de excessos que existia entre ela e o espelho foi trocado por um véu de seda. Beatriz ainda não se vê totalmente, mas já enxerga suas formas, sua silhueta e dois brilhos começam a emergir em seus olhos.
Beatriz não conseguia ficar triste, talvez ficasse um pouco aérea. Não sabia se era o remédio que tomava para a ansiedade ou se era a sua maturidade dando sinais de existência. Será que o tempo a endureceu? Se fosse há um ano ela se veria envolta a uma poça de lágrimas e se fecharia para tudo. Sozinha com seus livros e filmes esperando a dor passar.
Ultimamente ela parece saber o que quer. Estranho - ontem quando conversava com uma amiga que há tempos não via, alguma coisa estalou e depois ecoou em sua cabeça. “Sabe, Beatriz, quando a gente sabe o que quer tudo muda.”
E não é que mudou e ela nem tinha dado conta disso? Não dá para saber tudo, mas ela já sabe algumas poucas coisas que quer.
Porque é tão difícil saber o que quer? Parece que nós desviamos do verdadeiro desejo e colocamos uma lista de coisas materiais e impossíveis na frente. Beatriz costumava fazer listas: um jeans, um tênis colorido, blusas, livros, vestido tomara-que-caia, vestido estampado, saia no joelho, saia na coxa, namorado bonito, inteligente e rico, começar dieta, entrar para a academia, perder dois quilos, mudar de emprego, mudar de profissão, mudar de país, mudar.
Quem tem tempo (e espaço) para pensar no desejo mais íntimo com tanta besteira na frente? Há um mês economizando dinheiro para uma viagem que ela verdadeiramente quer, Beatriz está descobrindo os prazeres gratuitos e toda essa simplicidade a coloca em contato com ela mesma. O muro de excessos que existia entre ela e o espelho foi trocado por um véu de seda. Beatriz ainda não se vê totalmente, mas já enxerga suas formas, sua silhueta e dois brilhos começam a emergir em seus olhos.
Thursday, December 18, 2008
Abre aspas
Depois daquilo não sabia se ficava triste ou feliz. Em meio a sinfonia de telefones, cada um em um tom, cheguei atrasada para trabalhar. A culpa não é minha, é da chuva. Por mais que eu tente acordar cedo tá impossível. Fico na minha cama sentindo o cobertor quentinho no meu corpo, ajeito o travesseiro, mudo de posição, quero transformar mais dez minutos de sono em duas horas. Sonho. Nem o barulho da construção ao lado consegue me tirar daquele sonho bizarro em Paris.
Chego sem graça no trabalho, já eram quase onze horas, duas horas de atraso, mas se levar em consideração que eu trabalhei no feriado e no fim-de-semana, o que são duas horas? Acho que preciso ser mais cara de pau e mostrar nos meus gestos que conheço meus direitos. Tô muito longe de ser máquina. Demasiado humana.
Olhei para minha mesa e aquela confusão, todo mundo tentando fazer o meu trabalho, assumo meu posto e vejo as alterações que tenho que fazer, na sua maioria imbecilidades que meu chefe insiste em colocar para mostrar que sabe mais do que eu. Ele pode até saber umas coisinhas a mais de marketing direto, mas não fala japonês, não sabe quem foi Ted Curson, muito menos quem foi o Divino do Leite. Ele não entende que ninguém sabe mais que ninguém. Apenas sabemos coisas diferentes. Graças a Deus. Mas vamos deixá-lo brincar de todo poderoso. Algumas pessoas precisam disso.
Em um dos textos que ele pediu para que eu alterasse, estava escrito de caneta preta e letra nervosa: isso é citação? Colocar aspas. Citar o autor.
Ai que ótimo, colocar aspas no próprio texto que eu escrevi. Aliás eu deveria ter colocado. Abre aspas, fecha aspas. Carina Gonçalves. O imbecil não acreditou que o texto era meu, achou que eu copiei da internet e pior, tentou me ensinar o uso das aspas.
O texto estava tão bom que não poderia ser meu. Quanto descrédito. O texto não era meu mesmo, era do mundo, vinha das minhas referências, da minha vontade de entender o que se passa aqui, era um pouco de mim.
Engraçado. Foi eu escrever um pouco de mim que ele não acreditou que o texto era meu. Acho que não ando escrevendo sobre mim, acho que não tenho me colocado pra fora. E eu tenho tanto pra despejar…
Ultimamente tenho me achado medíocre no trabalho. Faço tudo rápido e sem vontade. Quero acabar logo com tudo para sobrar mais tempo para responder emails, ficar de papo com os amigos, e porque não, ver um filminho?
Algo tem que mudar. Ou eu me coloco pra fora, ou eu me coloco pra fora e fecha aspas.
Chego sem graça no trabalho, já eram quase onze horas, duas horas de atraso, mas se levar em consideração que eu trabalhei no feriado e no fim-de-semana, o que são duas horas? Acho que preciso ser mais cara de pau e mostrar nos meus gestos que conheço meus direitos. Tô muito longe de ser máquina. Demasiado humana.
Olhei para minha mesa e aquela confusão, todo mundo tentando fazer o meu trabalho, assumo meu posto e vejo as alterações que tenho que fazer, na sua maioria imbecilidades que meu chefe insiste em colocar para mostrar que sabe mais do que eu. Ele pode até saber umas coisinhas a mais de marketing direto, mas não fala japonês, não sabe quem foi Ted Curson, muito menos quem foi o Divino do Leite. Ele não entende que ninguém sabe mais que ninguém. Apenas sabemos coisas diferentes. Graças a Deus. Mas vamos deixá-lo brincar de todo poderoso. Algumas pessoas precisam disso.
Em um dos textos que ele pediu para que eu alterasse, estava escrito de caneta preta e letra nervosa: isso é citação? Colocar aspas. Citar o autor.
Ai que ótimo, colocar aspas no próprio texto que eu escrevi. Aliás eu deveria ter colocado. Abre aspas, fecha aspas. Carina Gonçalves. O imbecil não acreditou que o texto era meu, achou que eu copiei da internet e pior, tentou me ensinar o uso das aspas.
O texto estava tão bom que não poderia ser meu. Quanto descrédito. O texto não era meu mesmo, era do mundo, vinha das minhas referências, da minha vontade de entender o que se passa aqui, era um pouco de mim.
Engraçado. Foi eu escrever um pouco de mim que ele não acreditou que o texto era meu. Acho que não ando escrevendo sobre mim, acho que não tenho me colocado pra fora. E eu tenho tanto pra despejar…
Ultimamente tenho me achado medíocre no trabalho. Faço tudo rápido e sem vontade. Quero acabar logo com tudo para sobrar mais tempo para responder emails, ficar de papo com os amigos, e porque não, ver um filminho?
Algo tem que mudar. Ou eu me coloco pra fora, ou eu me coloco pra fora e fecha aspas.
Monday, November 17, 2008
Nadar faz bem
Joana foi até a janela do seu quarto e gritou: Eu desisto! Aquele gritou ecoou em toda vizinhança. Será que ela falava sério? Sua intenção era honesta, mas talvez tudo aquilo era mais forte do que ela. Joana sabia que vivia bem sem todas aquelas luzes coloridas, mas sempre que elas apareciam brilhando na sua frente ela nem pensava duas vezes em apanhá-las para enfeitar-se. Ficava tão impregnada de luz que se podia ver o brilho de quilômetros de distância. Ela não se preocupava em esconder.
Esconder o quê? De quem? Para quê? Esconde-esconde nunca foi seu forte, muito menos brincar de gato e rato. Ela não gostava dessas brincadeiras porque sabia como ninguém o que era o faz-de-conta e aquilo tudo era muito amador.
Agora ela ouve aquela música com a Billie Holiday cantando e entende cada palavra, cada suspiro e aquilo dói dentro dela. All of me. Dói mas é lindo. Ela está viva.
Esconder o quê? De quem? Para quê? Esconde-esconde nunca foi seu forte, muito menos brincar de gato e rato. Ela não gostava dessas brincadeiras porque sabia como ninguém o que era o faz-de-conta e aquilo tudo era muito amador.
Agora ela ouve aquela música com a Billie Holiday cantando e entende cada palavra, cada suspiro e aquilo dói dentro dela. All of me. Dói mas é lindo. Ela está viva.
Wednesday, October 29, 2008
Linda quando lida
Quando a vida se transforma em palavras, ela fica mais bonita. O desconforto fica interessante, o louco parece apenas excêntrico. A tristeza queima em uma fogueira que mais parece fogos de artifício. Mas isso não seria o símbolo da alegria? Sim. Mas é esse o poder das palavras: transformar tudo em beleza. Até o sentimento mais horrível pode ser lindo quando lido.
Thursday, October 9, 2008
Qualquer coincidência é mera semelhança
Ontem, o Rafa, um grande amigo me mandou a letra de uma música da Marisa Monte, que é mais ou menos assim (he he)
carina, vc é fofa
ouvi uma musica que falava de vc
é essa:
Ela que descobriu o mundo
E sabe vê-lo do ângulo mais bonito
Canta e melhora a vida, descobre sensações diferentes
Sente e vive intensamente
Aprende e continua aprendiz
Ensina muito e reboca os maiores amigos
Faz dança, cozinha, se balança na rede
E adormece em frente à bela vista
Despreocupa-se e pensa no essencial
Dorme e acorda
Conhece a Índia e o Japão e a dança haitiana
Fala inglês e canta em inglês
Escreve diários, pinta lâmpadas, troca pneus
E lava os cabelos com shampoos diferentes
Faz amor e anda de bicicleta dentro de casa
E corre quando quer
Cozinha tudo, costura, já fez boneco de pano
E brinco para a orelha, bolsa de couro, namora e é amiga
Tem computador e rede, rede para dois
Gosta de eletrodomésticos, toca piano e violão
Procura o amor e quer ser mãe, tem lençóis e tem irmãs
Vai ao teatro, mas prefere cinema
Sabe espantar o tédio
Cortar cabelo e nadar no mar
Tédio não passa nem por perto, é infinita, sensível, linda
Estou com saudades e penso tanto em você
Despreocupa-se e pensa no essencial
Dorme e acorda
carina, vc é fofa
ouvi uma musica que falava de vc
é essa:
Ela que descobriu o mundo
E sabe vê-lo do ângulo mais bonito
Canta e melhora a vida, descobre sensações diferentes
Sente e vive intensamente
Aprende e continua aprendiz
Ensina muito e reboca os maiores amigos
Faz dança, cozinha, se balança na rede
E adormece em frente à bela vista
Despreocupa-se e pensa no essencial
Dorme e acorda
Conhece a Índia e o Japão e a dança haitiana
Fala inglês e canta em inglês
Escreve diários, pinta lâmpadas, troca pneus
E lava os cabelos com shampoos diferentes
Faz amor e anda de bicicleta dentro de casa
E corre quando quer
Cozinha tudo, costura, já fez boneco de pano
E brinco para a orelha, bolsa de couro, namora e é amiga
Tem computador e rede, rede para dois
Gosta de eletrodomésticos, toca piano e violão
Procura o amor e quer ser mãe, tem lençóis e tem irmãs
Vai ao teatro, mas prefere cinema
Sabe espantar o tédio
Cortar cabelo e nadar no mar
Tédio não passa nem por perto, é infinita, sensível, linda
Estou com saudades e penso tanto em você
Despreocupa-se e pensa no essencial
Dorme e acorda
Tuesday, September 30, 2008
Sambinha do Single and Fabulous
Nem sempre Deus ajuda,
quem cedo madruga
é então na madrugada
que eu fico animada
Quem gosta de rua
sabe o que eu tô falando
então me deixa
ficar na cama enrolando
Não tenho amor que me queira
mas não me preocupo com isso
porque o samba e a cerveja
são o meu compromisso
Eu não sou vagabunda,
não sou não senhor
só porque o que eu mais quero
é ficar no cobertor
Vê se me esquece,
que um dia eu me arranjo
você quer ver como vai longe
essa minha cara de anjo
Trabalho o dia inteiro
pensando logo na noite
junto cada centavo
só pra entrar numa boite
Você ainda pergunta
onde é que eu vou chegar
não vou te dar satisfação
mas te encontro lá
quem cedo madruga
é então na madrugada
que eu fico animada
Quem gosta de rua
sabe o que eu tô falando
então me deixa
ficar na cama enrolando
Não tenho amor que me queira
mas não me preocupo com isso
porque o samba e a cerveja
são o meu compromisso
Eu não sou vagabunda,
não sou não senhor
só porque o que eu mais quero
é ficar no cobertor
Vê se me esquece,
que um dia eu me arranjo
você quer ver como vai longe
essa minha cara de anjo
Trabalho o dia inteiro
pensando logo na noite
junto cada centavo
só pra entrar numa boite
Você ainda pergunta
onde é que eu vou chegar
não vou te dar satisfação
mas te encontro lá
Wednesday, September 17, 2008
Bemol e sustenido
Olívia chegou em casa cansada das compras e do dia pesado de trabalho. Apenas tirou as sacolas do carro e deixou-as na cozinha. Não estava com saco para guardar tudo naquela hora. Esparramou-se na poltrona e ficou parada por uns 3 minutos olhando fixamente para o piano. Imóvel, quase catatônica, não tinha forças para se levantar, queria ficar nessa posição confortável para sempre.
Moveu um pouco a cabeça e como sempre fazia, tentou buscar uma explicação para seu desânimo. Olhar para o piano a transportava para a sua infância, quando tinha aulas com a Tia Marilene. Desde essa época, Olívia se mostrava desconcentrada do real e concentrada em seu mundo. Tocava aquelas teclas desordenadamente, achava que estava compondo. Sua cabeça flutuava em um grande concerto em que ela era a grande pianista e compositora, ouvia aplausos. Mas logo uma voz a acordava e ela saía do grande teatro para voltar à sala de piano da sua professora.
- Olívia, pára de brincar, você vai desafinar meu piano.
Resignada ela voltava para o Béla Bartók e assim ficava até dar a hora de voltar pra casa.
Decepcionada. É assim que se sente. Mais uma vez a expulsaram do grande teatro da sua imaginação. Mas com quem ela está decepcionada? Com o porteiro do teatro que fingiu não reconhecê-la, ou por acreditar que poderia estar naquele palco?
Promessas. Promessas suas. Promessas deles. Uma vez ela leu que a promessa era eterna porque ela nunca se realizava, depois que se realiza deixa de ser promessa. E enquanto não se realiza existe a esperança de que ainda vai acontecer.
E essa promessa ficou promessa, como todas as outras que já escutou até hoje. Como uma criança que morre e sempre permanecerá criança para quem a conheceu.
O que fazer? Levantar do sofá como sempre, arrumar aquela força que vem das notas musicais. Olívia sabe que é feita de música, agora ela precisa de um cresciendo. E o resto fica para trás, não foi música, foi barulho.
Moveu um pouco a cabeça e como sempre fazia, tentou buscar uma explicação para seu desânimo. Olhar para o piano a transportava para a sua infância, quando tinha aulas com a Tia Marilene. Desde essa época, Olívia se mostrava desconcentrada do real e concentrada em seu mundo. Tocava aquelas teclas desordenadamente, achava que estava compondo. Sua cabeça flutuava em um grande concerto em que ela era a grande pianista e compositora, ouvia aplausos. Mas logo uma voz a acordava e ela saía do grande teatro para voltar à sala de piano da sua professora.
- Olívia, pára de brincar, você vai desafinar meu piano.
Resignada ela voltava para o Béla Bartók e assim ficava até dar a hora de voltar pra casa.
Decepcionada. É assim que se sente. Mais uma vez a expulsaram do grande teatro da sua imaginação. Mas com quem ela está decepcionada? Com o porteiro do teatro que fingiu não reconhecê-la, ou por acreditar que poderia estar naquele palco?
Promessas. Promessas suas. Promessas deles. Uma vez ela leu que a promessa era eterna porque ela nunca se realizava, depois que se realiza deixa de ser promessa. E enquanto não se realiza existe a esperança de que ainda vai acontecer.
E essa promessa ficou promessa, como todas as outras que já escutou até hoje. Como uma criança que morre e sempre permanecerá criança para quem a conheceu.
O que fazer? Levantar do sofá como sempre, arrumar aquela força que vem das notas musicais. Olívia sabe que é feita de música, agora ela precisa de um cresciendo. E o resto fica para trás, não foi música, foi barulho.
Thursday, August 7, 2008
I don't know
Mal ele começou a falar e eu já me identifiquei. Suas primeiras palavras foram I don’t know. Só alguém muito sábio poderia responder aquela pergunta cabeluda com essas simples 3 palavras. Gostei de ver aquele monstro do cinema sorrindo e confessando que não sabe tudo.
Minha identificação não foi com a sabedoria dele, estou longe de ser sábia. Foi uma sensação confortante que ele passou. É normal não saber tudo. É normal ser você mesmo. É normal falar I don’t know. E eu falo I don’t know para muita coisa. E às vezes me dói dizer essas palavras. Queria saber mais. Mas depois que o David Lynch falou que não sabe, conti a minha ansiedade e consegui me dimensionar no espaço e tempo. Não saber é chegar mais perto da nossa essência, que é tão simples que passa despercebida pelos nossos olhinhos caçadores de complicação.
Ele falou outra coisa que gostei: “eu odeio trabalhar, apenas gosto de transformar minhas idéias em realidade”. Que eufemismo maravilhoso para trabalho, não? Nas nossas idéias estão embutidos nossos desejos e pricipalmente nossos sonhos. Que maravilha seria trabalhar com a realização dos sonhos. Por mais difícil que pareça isso é possível, afinal ele consegue. Tudo bem que estamos falando de David Lynch, ele até faz parecer fácil, mas não é. Pelo que consegui extrair da palestra tudo depende do nosso interior, da nossa relação eu-mundo, da tranquilidade que traz o auto-conhecimento. Quando sabemos quais são nossos limites, nada mais pode nos limitar.
Isso pode parecer texto de auto-ajuda, interprete como quiser. Não ligo. Só tive vontade de me expressar. Lynch chamaria este desejo de expressar de idéia. E para ele as idéias estão no ar como bolhas de sabão, mas elas são frágeis, podem estourar a qualquer momento. Você precisa aprender a pegá-las, fisgar o peixe grande. Não deixe sua idéia passar, aproveite o momento que ela surge, seja fiel a ela e faça acontecer.
Aí que entra a intuição. Para o mestre (já virou mestre, meu guru), existe a inteligência e a emoção e no meio e acima delas existe a intuição, que é o equilíbrio. É o inexplicável, é a nossa voz interior falando. A voz existe, mas quase nunca ouvimos e por isso desistimos de nossos desejos, abandonamos nossas idéias, sofremos, deprimimos, estressamos.
Como ouvir essa voz? I fucking don’t know. Temos que tentar, temos que nos preencher. Preencher a alma com a beleza. Ontem tomei um banho de beleza na sua palestra. A cada 5 minutos ele falava no seu inglês gostoso de escutar: “It’s beautiful”, podia-se ouvir a paixão na sua voz. Certamente a voz interior é apaixonada.
Às vezes me falha um pouco a memória para lembrar de tudo que foi falado, queria ter tudo gravado para ouvir toda vez que me desanimasse. De qualquer jeito, ele conseguiu me tocar, o resto vou lembrar, tenho certeza que essas frágeis bolhas de sabão vão aparecer na minha frente e não vou deixá-las estourar.
Wednesday, July 9, 2008
Sem mais nem menos
Nicole enoja de tudo. As vezes até de si mesmo. Ela se cansa de olhar para seus cabelos, suas roupas, e ouvir seus pensamentos repetitivos que parecem nunca chegar a lugar nenhum.
Quando Nicole se cansa, ela não dorme nem descansa, ela se agita, fica impaciente. Escrevendo seus pensamentos repetitivos ela descobriu que enjoar é cair num buraco negro sufocante e lá não tem nada, nem música, nem pessoa, nem coisa. Pra sair da cratera que abre sem mais nem menos embaixo dos seus pés ela tem que respirar fundo e ter contato com algo novo, um som, um cheiro, uma cor, assim seu buraco cria vida e ela consegue viver lá sossegada por algum tempo até que sem mais nem menos...
Será que o buraco cria vida? Porque não sair do buraco? Morar nele é disfarçar seu vazio com belíssimos artigos de decoração que só servem pra enfeitar, mas não duram. O problema de viver nesse lindo buraco decorado é que outros buracos se abrem aos pés dela, e cada vez mais fundo se chega. Até o centro da Terra, no magma, onde é insuportável viver.
Nicole não precisa de decoração, precisa de arquitetura, de engenharia, de uma obra concreta que a tire do buraco e a coloque em um lugar mais alto que a superfície pra não correr o risco de cair pra debaixo da terra de novo.
Quando Nicole se cansa, ela não dorme nem descansa, ela se agita, fica impaciente. Escrevendo seus pensamentos repetitivos ela descobriu que enjoar é cair num buraco negro sufocante e lá não tem nada, nem música, nem pessoa, nem coisa. Pra sair da cratera que abre sem mais nem menos embaixo dos seus pés ela tem que respirar fundo e ter contato com algo novo, um som, um cheiro, uma cor, assim seu buraco cria vida e ela consegue viver lá sossegada por algum tempo até que sem mais nem menos...
Será que o buraco cria vida? Porque não sair do buraco? Morar nele é disfarçar seu vazio com belíssimos artigos de decoração que só servem pra enfeitar, mas não duram. O problema de viver nesse lindo buraco decorado é que outros buracos se abrem aos pés dela, e cada vez mais fundo se chega. Até o centro da Terra, no magma, onde é insuportável viver.
Nicole não precisa de decoração, precisa de arquitetura, de engenharia, de uma obra concreta que a tire do buraco e a coloque em um lugar mais alto que a superfície pra não correr o risco de cair pra debaixo da terra de novo.
Wednesday, July 2, 2008
Lírico, mas não romântico
Esqueça a Torre Eiffel iluminada pelo céu azul de Paris. As únicas coisas azuis no filme são os olhos, a coloração da imagem e a música. Christophe Honorré sempre mostra essa Paris cinza, fria, real. Como fazer um filme de amor em Paris sem ser romântico, e ainda com o título: Canções de Amor? Honorré conseguiu. Parece irônico que um filme tão realista seja um musical. Mas não é ironia, é honestidade, c'est la vie. E a vida é isso: surpresas, rotinas, surpresas, trabalho, alegrias, sofrimentos, surpresas, morte, fundo-do-poço, fome, frio, calor, volta por cima. A vida e o amor não têm nada a ver com as histórias que vemos no cinema desde pequenos, com o seu belo final feliz, têm muito menos a ver com canções que dizem "eu sei que vou te amar por toda a minha vida". Mas não poderia nunca dizer que as Canções de Amor são falsas. Elas são verdadeiras para algumas pessoas, por algum tempo. Outro dia me peguei ouvindo um CD do cantor cubano Bola de Nieve, suas canções são o cúmulo das promessas apaixonadas e do sofrimento de não poder ter quem se ama. Apenas as ouvi como uma bela melodia e voz, mas as palavras não me tocaram. Talvez estivesse eu apaixonada ou de coração partido essas palavras ecoassem dentro de mim. Voltando ao filme, mais uma vez Honorré me encanta com a sua ambigüidade. Cada canção é tão lírica, tão profunda, o que me faz ver que a realidade é poética, "a vida é um mistério" como um das personagens do filme diz. E como é um mistério! Todos os dias recebemos desafios que quase julgamos impossíveis de enfrentar e quando menos percebemos já estamos numa situação completamente diferente da anterior, quem imaginaria. Gostaria de me aprofundar na história, mas tenho medo de estragar a surpresa de quem ainda não assistiu ao filme. Mas já adianto que o fim do filme é como uma morte, algo que sabemos que vai chegar, mas não sabemos quando.
Les chansons d'amour
Christophe Honoré
Les chansons d'amour
Christophe Honoré
Wednesday, June 18, 2008
Vou voltar
“ vou voltar... vou voltar...” não acredito que essa musica foi vaiada no festival da canção. Ela é tão linda... dizem que é porque ela não tinha enfoque político, e naquela época se você não tinha um discurso político era um alienado.
Tom Jobim. Ele é um dos meus maiores ídolos, não só por causa da sua música que pra mim é a mais linda do mundo, mas porque ele sabia o que queria e fez. Bem, deixe eu me apresentar. Meu nome é Carina, tenho 28 anos, ou quase trinta, como a minha mãe prefere. Trabalho como redatora em uma agência de publicidade. Odeio meu trabalho. Mas ainda não sei se odeio o trabalho de redatora ou se odeio trabalhar. Esse é um dos questionamentos mais profundos da minha vida.
Sou cheia dos sonhos inconcretos, de preguiça e confesso, sou alienada. Todos falam de Chavez , Farc, Fidel, Lula, Hilary e Obama. Me interesso mais por romances, filmes e o meu vício atual que são os seriados americanos de TV. Por mais que eu não goste dos EUA por ideologia, adoro suas piadinhas, seu modo de me hipnotizar na frente da tela e me manter beeeem longe do meu pensamento mais recorrente e mais aterrorizante: o que você vai fazer com a sua vida, Carina?
Todos dias acordo às 7:30h com a sensação que podia ficar na cama até às 19h, tomo banho, demoro pra escolher a roupa e vou pro trabalho. Lá, a primeira pessoa que vejo é a linda recepcionista com seu sorrisinho amarelo que estraga 50% da sua genética.
Subo as escadas pretas com paredes igualmente pretas e tenho que dar bom dia a um por um. Às vezes ando meio escondida para evitar o contato visual e físico a essa hora da manhã.
Sento no meu computador, abro meu gmail e o dia começa. Respondo alguns gatos pingados que me escrevem, coloco meu fone de ouvido e me isolo no meu mundo em que Tom Jobim iria ganhar o primeiro lugar por falar de amor e não de política.
Juro que tentei ser uma pessoa politizada, principalmente na época do vestibular quando meus professores diziam que conhecimentos gerais sempre caem nas provas de geografia. Tentei, como fiz com o Ballet, com o piano, o violão, o canto lírico, o curso de Direito, os serviços sociais, não consegui.
Achei que não poderia gastar meu precioso tempo fazendo isso, mas podia passar horas na frente de TV vendo seriados fracassados como Caroline in the city. Pelo menos nesses momento eu não estava me culpando por ter dado errado em quase tudo e de ser uma desistente. Não gosto dessa palavra desistente, parece uma ação contínua de desistir. Uma vez desistente sempre desistente. Porque não desistidora? Essa sou eu tentando achar uma dignidade em desistir.
Do que eu estava falando mesmo? Tenho um problema de foco e concentração. Toda vez que algo fica muito sério, eu mudo de assunto, ou de faculdade, ou profissão, ou instrumento.
Mas voltando à política. É claro que todo mundo tem a sua área de interesse principal com exceção desses malditos filósofos (usei maldito aqui de puro despeito) que parecem se interessar por tudo. Na verdade não vou falar nada sobre política, pra mim ela só tem interesse depois que vira história e romanceada de preferência. Aliás porque não se ensinam história em forma de romance nas escolas?
Acho que provei duas coisas no parágrafo anterior: a falta de foco e o amor pelo romance, pela narrativa, pela história estória. Posso passar tardes vendo filmes. Gosto dos mais idiotas aos mais sem-pé-nem-cabeça. Gosto de ouvir histórias, de ver como cada um tem um modo diferente de contar, gosto de histórias originais e de adaptações. Tanto na música quanto no cinema. Gosto de ver a genialidade de fazer uma obra aberta e da inteligência de outros para fazer uma obra completamente compreensível, sem lacunas. É a clareza versus a obscuridade. Todos têm a sua beleza. E tem gosto para tudo. E pessoas que tem muitos gostos como eu.
É, outra coisa sobre mim, sou muito critica e preconceituosa. Conversando com meu pai um dia, sobre eu ser uma pessoa preconceituosa ele foi muito delicado e me disse:
-“ que isso minha filha, você só tem um gosto mais apurado e não aceita certas coisas”. Gostei da definição dele. Vou passar a usá-la.
Parei pra ver uma revista ridícula sobre um shopping da minha cidade. Por alguns minutos me perco entre fotos de modas e mulheres de longos cabelos lisos e esqueço onde estou. 5 minutos depois a revista acabou e me dou de cara com o computador e esse texto aberto na minha frente. Vou continuar.
Por alguns momentos fico sem assunto. Penso sobre o que vou falar. Em primeiro vem o meu espírito auto-destrutivo e sopra ao meu ouvido:
- psiu, fala da sua timidez, conta que desde de pequena você é envergonhada. Depois vem o meu adormecido espírito construtivo:
- que isso, fala da sua habilidade com idiomas. Vou deixar o tópico timidez pra quando acabar o assunto. Sobre idiomas é verdade, sempre tive facilidade, falo inglês, japonês (mas não leio nem escrevo), espanhol e estou aprendendo francês. Gosto do transformar das palavras, adoro ver e conhecer essas diferenças e ficar pensando sobre isso.
Mais uma vez meu espírito auto-destrutivo me cutuca:
- conta que você tem uma irmã e que você se sente comparada a ela o tempo todo e que você se sente inferior a ela.
Infelizmente é verdade. Eu tinha 2 anos e 8 meses quando ela nasceu. Ela era a criança mais linda e fofa ao contrario da minha magreleza e esquisitice.
Gordinha, cabelos com cachos, não foi difícil pra minha mãe inventar seu apelido: Bela. A menina dengosa, carinhosa, sorridente e como se não bastasse, inteligentíssima. Sempre a número 1 da sala. Amada por colegas, professoras e família. A Carina, coitada, não tinha amigos era rejeitada, ficava sempre no canto calada, no pré-primário, a única pessoa que falava com ela era a professora Tia Suzana, as vezes a gorda da Carolina também falava, mas geralmente era um comentário que ofendia a Carina. Até aquela gorda insuportável!
Tudo que a Carina fazia bem a Bela ia e fazia melhor. Piano, canto, dança. Carina foi se apagando. Ela, digo, eu, só queria não ficar à sombra desse fantasma. Hoje eu moro com a Bela, e ela se tornou a minha irmã mais velha. É ela que entende de relacionamentos, é ela que é independente. Ela tem mil amigos
Agora chega a Fernanda, a tráfego da agência com mais um trabalho pra eu fazer, refazer, quero dizer. Um cartão de aniversário para captar um cliente para um banco. Como se isso fosse conquistar alguém. Ainda mais pra mudar de banco. Será que existe alguém tão carente nesse mundo que se sentiria tocado por um cartão de aniversário de um banco a ponto de mudar a conta. Quanto dinheiro em vão! Ok, não é meu dinheiro. É meu tempo, é meu esforço é meu saco.
Fiz o trabalho em 5 minutos, cortei palavras, coloquei outras novas. Fiz um trabalho porco como ele merece ser.
Desci, comi mais do que precisava pra alimentar a minha ansiedade.
Tom Jobim. Ele é um dos meus maiores ídolos, não só por causa da sua música que pra mim é a mais linda do mundo, mas porque ele sabia o que queria e fez. Bem, deixe eu me apresentar. Meu nome é Carina, tenho 28 anos, ou quase trinta, como a minha mãe prefere. Trabalho como redatora em uma agência de publicidade. Odeio meu trabalho. Mas ainda não sei se odeio o trabalho de redatora ou se odeio trabalhar. Esse é um dos questionamentos mais profundos da minha vida.
Sou cheia dos sonhos inconcretos, de preguiça e confesso, sou alienada. Todos falam de Chavez , Farc, Fidel, Lula, Hilary e Obama. Me interesso mais por romances, filmes e o meu vício atual que são os seriados americanos de TV. Por mais que eu não goste dos EUA por ideologia, adoro suas piadinhas, seu modo de me hipnotizar na frente da tela e me manter beeeem longe do meu pensamento mais recorrente e mais aterrorizante: o que você vai fazer com a sua vida, Carina?
Todos dias acordo às 7:30h com a sensação que podia ficar na cama até às 19h, tomo banho, demoro pra escolher a roupa e vou pro trabalho. Lá, a primeira pessoa que vejo é a linda recepcionista com seu sorrisinho amarelo que estraga 50% da sua genética.
Subo as escadas pretas com paredes igualmente pretas e tenho que dar bom dia a um por um. Às vezes ando meio escondida para evitar o contato visual e físico a essa hora da manhã.
Sento no meu computador, abro meu gmail e o dia começa. Respondo alguns gatos pingados que me escrevem, coloco meu fone de ouvido e me isolo no meu mundo em que Tom Jobim iria ganhar o primeiro lugar por falar de amor e não de política.
Juro que tentei ser uma pessoa politizada, principalmente na época do vestibular quando meus professores diziam que conhecimentos gerais sempre caem nas provas de geografia. Tentei, como fiz com o Ballet, com o piano, o violão, o canto lírico, o curso de Direito, os serviços sociais, não consegui.
Achei que não poderia gastar meu precioso tempo fazendo isso, mas podia passar horas na frente de TV vendo seriados fracassados como Caroline in the city. Pelo menos nesses momento eu não estava me culpando por ter dado errado em quase tudo e de ser uma desistente. Não gosto dessa palavra desistente, parece uma ação contínua de desistir. Uma vez desistente sempre desistente. Porque não desistidora? Essa sou eu tentando achar uma dignidade em desistir.
Do que eu estava falando mesmo? Tenho um problema de foco e concentração. Toda vez que algo fica muito sério, eu mudo de assunto, ou de faculdade, ou profissão, ou instrumento.
Mas voltando à política. É claro que todo mundo tem a sua área de interesse principal com exceção desses malditos filósofos (usei maldito aqui de puro despeito) que parecem se interessar por tudo. Na verdade não vou falar nada sobre política, pra mim ela só tem interesse depois que vira história e romanceada de preferência. Aliás porque não se ensinam história em forma de romance nas escolas?
Acho que provei duas coisas no parágrafo anterior: a falta de foco e o amor pelo romance, pela narrativa, pela história estória. Posso passar tardes vendo filmes. Gosto dos mais idiotas aos mais sem-pé-nem-cabeça. Gosto de ouvir histórias, de ver como cada um tem um modo diferente de contar, gosto de histórias originais e de adaptações. Tanto na música quanto no cinema. Gosto de ver a genialidade de fazer uma obra aberta e da inteligência de outros para fazer uma obra completamente compreensível, sem lacunas. É a clareza versus a obscuridade. Todos têm a sua beleza. E tem gosto para tudo. E pessoas que tem muitos gostos como eu.
É, outra coisa sobre mim, sou muito critica e preconceituosa. Conversando com meu pai um dia, sobre eu ser uma pessoa preconceituosa ele foi muito delicado e me disse:
-“ que isso minha filha, você só tem um gosto mais apurado e não aceita certas coisas”. Gostei da definição dele. Vou passar a usá-la.
Parei pra ver uma revista ridícula sobre um shopping da minha cidade. Por alguns minutos me perco entre fotos de modas e mulheres de longos cabelos lisos e esqueço onde estou. 5 minutos depois a revista acabou e me dou de cara com o computador e esse texto aberto na minha frente. Vou continuar.
Por alguns momentos fico sem assunto. Penso sobre o que vou falar. Em primeiro vem o meu espírito auto-destrutivo e sopra ao meu ouvido:
- psiu, fala da sua timidez, conta que desde de pequena você é envergonhada. Depois vem o meu adormecido espírito construtivo:
- que isso, fala da sua habilidade com idiomas. Vou deixar o tópico timidez pra quando acabar o assunto. Sobre idiomas é verdade, sempre tive facilidade, falo inglês, japonês (mas não leio nem escrevo), espanhol e estou aprendendo francês. Gosto do transformar das palavras, adoro ver e conhecer essas diferenças e ficar pensando sobre isso.
Mais uma vez meu espírito auto-destrutivo me cutuca:
- conta que você tem uma irmã e que você se sente comparada a ela o tempo todo e que você se sente inferior a ela.
Infelizmente é verdade. Eu tinha 2 anos e 8 meses quando ela nasceu. Ela era a criança mais linda e fofa ao contrario da minha magreleza e esquisitice.
Gordinha, cabelos com cachos, não foi difícil pra minha mãe inventar seu apelido: Bela. A menina dengosa, carinhosa, sorridente e como se não bastasse, inteligentíssima. Sempre a número 1 da sala. Amada por colegas, professoras e família. A Carina, coitada, não tinha amigos era rejeitada, ficava sempre no canto calada, no pré-primário, a única pessoa que falava com ela era a professora Tia Suzana, as vezes a gorda da Carolina também falava, mas geralmente era um comentário que ofendia a Carina. Até aquela gorda insuportável!
Tudo que a Carina fazia bem a Bela ia e fazia melhor. Piano, canto, dança. Carina foi se apagando. Ela, digo, eu, só queria não ficar à sombra desse fantasma. Hoje eu moro com a Bela, e ela se tornou a minha irmã mais velha. É ela que entende de relacionamentos, é ela que é independente. Ela tem mil amigos
Agora chega a Fernanda, a tráfego da agência com mais um trabalho pra eu fazer, refazer, quero dizer. Um cartão de aniversário para captar um cliente para um banco. Como se isso fosse conquistar alguém. Ainda mais pra mudar de banco. Será que existe alguém tão carente nesse mundo que se sentiria tocado por um cartão de aniversário de um banco a ponto de mudar a conta. Quanto dinheiro em vão! Ok, não é meu dinheiro. É meu tempo, é meu esforço é meu saco.
Fiz o trabalho em 5 minutos, cortei palavras, coloquei outras novas. Fiz um trabalho porco como ele merece ser.
Desci, comi mais do que precisava pra alimentar a minha ansiedade.
Wednesday, June 11, 2008
Incomunicabilidade graças a Deus.
Tenho fome. Tenho sede. Sinto frio. Sinto calor.
Você está chateada? Não. Claro que estou.
Eu fiz algo com você? Lógico que fiz, transei a noite toda com você, disse que a queria como namorada, que te adorava e que há tempos não me divertia tanto, depois falo que tenho namorada.
Não, você não fez nada, mas cadê sua namorada? Lógico que fez! Cadê sua namorada?
Deixei ela em casa. Quero terminar com ela. Aliás vou terminar. Será que ela cai de novo nessa história? Ela está tão gostosa com essa roupa, foi tão boa aquela noite, tenho que comer essa menina de novo, ai, qual é o nome dela mesmo?
Ah tá bom, conta outra. Sai de perto de mim. Me beija.
Vem cá, vamos relembrar aqueles velhos momentos. Vamos trepar a noite toda de novo.
Ei! Você nem sabe meu nome. Vai procurar sua namorada. Te odeio, mas queria que você estivesse comigo.
Você tá tomando as dores da minha namorada? Gente, mas que louca!
Tô sim. Solidariedade feminina. Não, seu canalha. Tô tomando as minhas próprias dores, de ter sido ingênua de cair na sua conversa e idiota por não ter apenas aproveitado o momento.
Que isso, me beija, vem?
Não. Sai daqui. Volta, tenta mais que eu vou ceder.
E ele se foi.
Você está chateada? Não. Claro que estou.
Eu fiz algo com você? Lógico que fiz, transei a noite toda com você, disse que a queria como namorada, que te adorava e que há tempos não me divertia tanto, depois falo que tenho namorada.
Não, você não fez nada, mas cadê sua namorada? Lógico que fez! Cadê sua namorada?
Deixei ela em casa. Quero terminar com ela. Aliás vou terminar. Será que ela cai de novo nessa história? Ela está tão gostosa com essa roupa, foi tão boa aquela noite, tenho que comer essa menina de novo, ai, qual é o nome dela mesmo?
Ah tá bom, conta outra. Sai de perto de mim. Me beija.
Vem cá, vamos relembrar aqueles velhos momentos. Vamos trepar a noite toda de novo.
Ei! Você nem sabe meu nome. Vai procurar sua namorada. Te odeio, mas queria que você estivesse comigo.
Você tá tomando as dores da minha namorada? Gente, mas que louca!
Tô sim. Solidariedade feminina. Não, seu canalha. Tô tomando as minhas próprias dores, de ter sido ingênua de cair na sua conversa e idiota por não ter apenas aproveitado o momento.
Que isso, me beija, vem?
Não. Sai daqui. Volta, tenta mais que eu vou ceder.
E ele se foi.
Monday, May 26, 2008
De que vale um brinco?
Ela andava preocupada tentando disfarçar suas frustrações consigo e com os outros. Por mais que fingisse não importar, toda hora aqueles pensamentos vinham a tona. Às vezes se pegava obcecada em entender tudo que se passava e claro, tentava se justificar. Repetia tudo para todos e para si mesma toda hora.
Buscava nos livros, nos filmes, nas músicas. Queria respostas. Mas ela já as conhecia. Era duro, mas tentava se enganar. Já estava acostumada a colocar uma capa de romantismo em tudo na sua vida.
Essa capa era turva, embaçava a realidade, deixava-a mais bonita. Ela poderia viver assim para sempre se não houvesse mais ninguém no mundo, ou se todos pudessem sentir as coisas maravilhosas que ela sentia. Mas não, quem quer sentir hoje em dia? Querem apenas possuir. Pessoas e coisas.
E um dia chega a morte, que anula tudo e diminui toda a importância que ela dá as coisas. Estranhamente a morte vem acompanhada de vida e afasta todos pensamentos que podem acabar com ela aos poucos.
Buscava nos livros, nos filmes, nas músicas. Queria respostas. Mas ela já as conhecia. Era duro, mas tentava se enganar. Já estava acostumada a colocar uma capa de romantismo em tudo na sua vida.
Essa capa era turva, embaçava a realidade, deixava-a mais bonita. Ela poderia viver assim para sempre se não houvesse mais ninguém no mundo, ou se todos pudessem sentir as coisas maravilhosas que ela sentia. Mas não, quem quer sentir hoje em dia? Querem apenas possuir. Pessoas e coisas.
E um dia chega a morte, que anula tudo e diminui toda a importância que ela dá as coisas. Estranhamente a morte vem acompanhada de vida e afasta todos pensamentos que podem acabar com ela aos poucos.
Tuesday, March 11, 2008
Cansada
Acordo de madrugada sem saber o que fazer, é como se eu não tivesse ação nenhuma e um vazio imenso fosse me engolir, encolho meu corpo, entro para debaixo do cobertor e tento em vão buscar o conforto da cama quente e macia. Não adianta, minha cabeça está deitada em pedras pontiagudas. Tenho que esperar o dia, o barulho, pra não ouvir o que diz minha mente.
De dia é tudo fingimento, mas não tem ilusão. Vejo tudo acontecendo com lucidez e isso não me agrada. Preferiria não saber nada, fechar os olhos e balançar a cabeça. Por que algo quer tanto sair de dentro de mim?
E não há ninguém pra me consolar. Consigo ficar perto de onde eu vim, do meu óvulo progenitor, fora isso nada faz sentido. Não sou eu. Não quero falar de mim, quero apenas me justificar por alguma coisa. Me justifico por tudo. Ultimamente tenho pedido desculpas por ser humana.
De dia é tudo fingimento, mas não tem ilusão. Vejo tudo acontecendo com lucidez e isso não me agrada. Preferiria não saber nada, fechar os olhos e balançar a cabeça. Por que algo quer tanto sair de dentro de mim?
E não há ninguém pra me consolar. Consigo ficar perto de onde eu vim, do meu óvulo progenitor, fora isso nada faz sentido. Não sou eu. Não quero falar de mim, quero apenas me justificar por alguma coisa. Me justifico por tudo. Ultimamente tenho pedido desculpas por ser humana.
Friday, December 7, 2007
la niña buena
Acabei de ler “ Travesuras de la nina mala”. Li a última frase do livro como alguém que acaba de desvendar um segredo. Mas não um segredo comum. Algo muito maior. O personagem central do livro é um romântico que nunca teve muitas ambições na vida. Desde pequeno só queria morar em Paris, e assim fez.
Lá trabalhava como intérprete e às vezes chegou até traduzir alguns livros. Mas o tempo todo viveu a vida dos outros, o livro dos outros, as paixões dos outros. Nunca amou outra mulher a não ser a que mais lhe maltratava, que fazia com ele as maiores sujeiras que um ser-humano podia fazer a outro. Mas ela era a sua paixão, a niña mala.
Ele viveu essa paixão da forma mais intensa possível. Por ela deixava trabalho, ia até o Japão,e se fosse preciso até se casava com ela. Uma história de amor unilateral difícil de acreditar que possa existir. Ela, não sei se chegou a amá-lo, mas definitivamente amava a forma de como ele a adorava apesar de tudo.
Em todo livro a ambição da niña mala, a coragem para abandonar tudo, a franqueza dela nos leva crer que não existiria alguém com aquela fidelidade aos próprios sentimentos e aspirações. Mas tudo resultou em castelos de areias, na verdade ela não sabia o que queria. Buscava algo com muito empenho, mas não era nada daquilo, nada a preenchia. El niño bueno por sua vez, parecia um fraco que só sabia se submeter aos caprichos da niña mala, foi a pessoa mais verdadeira a sua aspiração. Ele só queria amar a niña e o fez até o final da vida dela. E assim permaneceu encontrando nela, em todo esse tempo que não foi desperdiçado(por mais que parecesse), a sua vocação e a paixão que talvez reprimia ou não enxergava que era escrever. Não mais transcrever o que os outros falavam ou escreviam, mas sim a sua história, a sua vida. Ela já havia lhe dado o material. Uma vida de amores impossíveis.
O segredo que eu mencionei no início é algo sub-valorizado nos dias de hoje, trata-se de viver a vida com paixão, fazer o que ama, sem a ambição material. É romântico, eu sei, mas não dá para fugir do que se é.
Talvez eu não tenha encontrado isso profissionalmente, mas tenho certeza que amo tudo que é periférico ao meu trabalho. E faço tudo sem qualquer ambição, faço simplesmente pela paixão.
Travesuras de la niña mala.
Mario Vargas Llosa
Lá trabalhava como intérprete e às vezes chegou até traduzir alguns livros. Mas o tempo todo viveu a vida dos outros, o livro dos outros, as paixões dos outros. Nunca amou outra mulher a não ser a que mais lhe maltratava, que fazia com ele as maiores sujeiras que um ser-humano podia fazer a outro. Mas ela era a sua paixão, a niña mala.
Ele viveu essa paixão da forma mais intensa possível. Por ela deixava trabalho, ia até o Japão,e se fosse preciso até se casava com ela. Uma história de amor unilateral difícil de acreditar que possa existir. Ela, não sei se chegou a amá-lo, mas definitivamente amava a forma de como ele a adorava apesar de tudo.
Em todo livro a ambição da niña mala, a coragem para abandonar tudo, a franqueza dela nos leva crer que não existiria alguém com aquela fidelidade aos próprios sentimentos e aspirações. Mas tudo resultou em castelos de areias, na verdade ela não sabia o que queria. Buscava algo com muito empenho, mas não era nada daquilo, nada a preenchia. El niño bueno por sua vez, parecia um fraco que só sabia se submeter aos caprichos da niña mala, foi a pessoa mais verdadeira a sua aspiração. Ele só queria amar a niña e o fez até o final da vida dela. E assim permaneceu encontrando nela, em todo esse tempo que não foi desperdiçado(por mais que parecesse), a sua vocação e a paixão que talvez reprimia ou não enxergava que era escrever. Não mais transcrever o que os outros falavam ou escreviam, mas sim a sua história, a sua vida. Ela já havia lhe dado o material. Uma vida de amores impossíveis.
O segredo que eu mencionei no início é algo sub-valorizado nos dias de hoje, trata-se de viver a vida com paixão, fazer o que ama, sem a ambição material. É romântico, eu sei, mas não dá para fugir do que se é.
Talvez eu não tenha encontrado isso profissionalmente, mas tenho certeza que amo tudo que é periférico ao meu trabalho. E faço tudo sem qualquer ambição, faço simplesmente pela paixão.
Travesuras de la niña mala.
Mario Vargas Llosa
Monday, December 3, 2007
Uma pergunta nao quer calar: Por quê nos ocultamos? ( Juan )
(texto do Joãozinho, vulgo Juan Benítez)
Era uma jovem senhora. Vivia só, em um apartamento normal, como normal sao sempre as coisas da vida. Faço uma correçao. Nao vivia totalmente só,a parte do seu asqueroso gato, alguns fantasmas conviviam em seu apartamento normal e às vezes lhe alegrava outras tornava sua vida impossível.
Cada um, quando nasce, tem um fantasma para acompanhar-lhe por toda vil existência. E cada um tem o fantasma que merece. Nao os escolhemos. Ao contrário, sao eles que nos escolhem. Penso que todos os dias pela manha existe uma convençao fantasmagórica onde se decide a qual fantasma caberá a missao de tutear um ser-humano.
Bom, o importante, é que esta mulher conhecia os seus fantasmas. E conhecer seus fantasmas nao é o mesmo que aceita-los. Existem pessoas que passa toda a vida lutando contras eles, mas na verdade é uma luta injusta. Exorcizar nossos fantasmas significa ignorar nossa pulsao de vida.
Mas como dói aprender a conviver com eles. O fato é que esta senhora nao havia aceitado os seus fantasmas o que sim havia ocorrido é que ela cedeu parte de sua casa para eles fazerem o que quiserem.
E assim foi. Ela sabia que seus inquilinos jamais se afastariam, de modo que ela pensou. "Tem uma forma simples de expulsar estes indesejáveis ocupantes: me aceitarei tal como sou. Nao sou jovem, mas vivi o suficiente para nao desejar voltar aos 17; nao sou bonita, mas de qualquer modo isso nunca foi empecilho para deitar-me com o homem (ou mulher) que quisesse. Nao sou rica, Mas mensalmente posso comprar meu Dior, meu Manolo, ou se quero um Oscar de la Renta. Nao sou inteligente, ah, taopouco é algo importante em nossos dias".
E assim ela passou o dia construindo uma lista das coisas positivas que possuia. E ao fim percebeu que apesar disso tudo ela nao tinha um amor de verdade. Um amor daqueles cujo maior beneficio é fazer amar a si, mais e intensamente. E dessa forma num raio de desesperança ela sentiu que seus fantasmas já nao faziam parte de sua vida normal. Eles foram expulsos quando ela autodescobriu que os fantasmas sao na verdade, a dor nossa de cada dia, fruto bendito de nossa desgraçada condiçao de errantes angustiados; sedentos de respostas e esfomiados de esperança. Os fantasmas se alimentam de nossa autodestruiçao, sao viventes de nossa autopiedade.
Naquela noite, primeira realmente só, ela sentiu uma dor como nunca jamais havia sentido. Era a dor da solidao. Entao, foi quando ela chorou. Suas lágrimas diziam o que no seu coraçao ardia. Aceitar-se, ajuda a descobrir algumas respostas. Mas o conhecimento da causa nao cura a dor. E por isso preferimos viver na ignorancia e nos ocultamos atrás dos nossos fantasmas.
E pois, ela sentiu saudades de seus fantasmas e desejou fortemente re-adquiri-los.
Mas já era tarde. Uma vez cruzado a linha do conhecimento o caminho percorrido se desfaz.
Agora ela necessita aprender a conviver sem os seus fantasmas e sem um amor. E ao seu gato que nunca lhe fez caso ela disse entre soluços: Quisera voltar à ignorancia.
Era uma jovem senhora. Vivia só, em um apartamento normal, como normal sao sempre as coisas da vida. Faço uma correçao. Nao vivia totalmente só,a parte do seu asqueroso gato, alguns fantasmas conviviam em seu apartamento normal e às vezes lhe alegrava outras tornava sua vida impossível.
Cada um, quando nasce, tem um fantasma para acompanhar-lhe por toda vil existência. E cada um tem o fantasma que merece. Nao os escolhemos. Ao contrário, sao eles que nos escolhem. Penso que todos os dias pela manha existe uma convençao fantasmagórica onde se decide a qual fantasma caberá a missao de tutear um ser-humano.
Bom, o importante, é que esta mulher conhecia os seus fantasmas. E conhecer seus fantasmas nao é o mesmo que aceita-los. Existem pessoas que passa toda a vida lutando contras eles, mas na verdade é uma luta injusta. Exorcizar nossos fantasmas significa ignorar nossa pulsao de vida.
Mas como dói aprender a conviver com eles. O fato é que esta senhora nao havia aceitado os seus fantasmas o que sim havia ocorrido é que ela cedeu parte de sua casa para eles fazerem o que quiserem.
E assim foi. Ela sabia que seus inquilinos jamais se afastariam, de modo que ela pensou. "Tem uma forma simples de expulsar estes indesejáveis ocupantes: me aceitarei tal como sou. Nao sou jovem, mas vivi o suficiente para nao desejar voltar aos 17; nao sou bonita, mas de qualquer modo isso nunca foi empecilho para deitar-me com o homem (ou mulher) que quisesse. Nao sou rica, Mas mensalmente posso comprar meu Dior, meu Manolo, ou se quero um Oscar de la Renta. Nao sou inteligente, ah, taopouco é algo importante em nossos dias".
E assim ela passou o dia construindo uma lista das coisas positivas que possuia. E ao fim percebeu que apesar disso tudo ela nao tinha um amor de verdade. Um amor daqueles cujo maior beneficio é fazer amar a si, mais e intensamente. E dessa forma num raio de desesperança ela sentiu que seus fantasmas já nao faziam parte de sua vida normal. Eles foram expulsos quando ela autodescobriu que os fantasmas sao na verdade, a dor nossa de cada dia, fruto bendito de nossa desgraçada condiçao de errantes angustiados; sedentos de respostas e esfomiados de esperança. Os fantasmas se alimentam de nossa autodestruiçao, sao viventes de nossa autopiedade.
Naquela noite, primeira realmente só, ela sentiu uma dor como nunca jamais havia sentido. Era a dor da solidao. Entao, foi quando ela chorou. Suas lágrimas diziam o que no seu coraçao ardia. Aceitar-se, ajuda a descobrir algumas respostas. Mas o conhecimento da causa nao cura a dor. E por isso preferimos viver na ignorancia e nos ocultamos atrás dos nossos fantasmas.
E pois, ela sentiu saudades de seus fantasmas e desejou fortemente re-adquiri-los.
Mas já era tarde. Uma vez cruzado a linha do conhecimento o caminho percorrido se desfaz.
Agora ela necessita aprender a conviver sem os seus fantasmas e sem um amor. E ao seu gato que nunca lhe fez caso ela disse entre soluços: Quisera voltar à ignorancia.
Presentando Juan Benítez
Para quem não conhece, Juan Benítez é um grande amigo meu. Nosso caso de amor não foi a primeira vista, ele me achou uma patricinha antipática, eu não fui tão preconceituosa assim, quer dizer, talvez fui, mas não por maldade, por experiência enxerguei o segredo que ele tanto escondia. Um dia, por acaso nos sentamos lado a lado, e subitamente crescia uma grande simpatia e afinidade. Entre teatrinhos e melocotóns nos tornamos grandes amigos. Toda terça e quinta a gente se encontrava. A gente tava lá pra aprender, mas em meios a ensinamentos de crentes, loucas, queridas conseguíamos tirar todo o peso do aprendizado e tranformávamos em leves risadas. A amizade persistiu. Já tem 7 anos, os dois mudaram, cresceram inclusive nos músculos. O legal da amizade com o Juan, é que ele não pára de me surpreender. Conhecedor da alma humana, dono dos melhores conselhos, amigo das palavras, sensível, culto, solícito, inteligente. Assim é o Juan.
Estou introduzindo ele nesse blog porque quero dividir com quem vem aqui as palavras que ele escreve, não seria justo guardar só pra mim.
Com vocês, diretamente de Pamplona: Juan B.
Estou introduzindo ele nesse blog porque quero dividir com quem vem aqui as palavras que ele escreve, não seria justo guardar só pra mim.
Com vocês, diretamente de Pamplona: Juan B.
Friday, November 30, 2007
Maio, o frio e os presentes
(mais um de maio deste ano. êta mês bom pra escrever. acho que o frio faz refletir)
Eu pensei que ele nunca chegaria, enfim, assim sem falar nada, chegou nessa madrugada de maio. Ele. O frio, o anúncio do inverno. Me pegou de surpresa, acho que ele não sabia das minhas aulas de natação. Mas tudo bem, não foi tão ruim assim. Ele ficou na dele e nem me incomodou.
Como ele nunca vem sozinho, trouxe aquele azul que eu gosto tanto. Que dia diferente, pensei. Quando maio começa, sinto que uma porta é aberta, não sei se é porque é o mês que eu faço aniversário, ou é só a mudança do tempo que me traz algo novo. Mas hoje com certeza tem algo novo. Começo o dia ouvindo um lindo CD do Baden com o Grappelli, a melhor trilha para esse dia maravilhoso.
Sabe aquela sensação de intimidade que podemos ter com objetos, músicas, lugares, pessoas. Por exemplo, quando alguém fala para você: “Ei, ouvi um disco foda de um cara argentino, de tango...” – No meio da fala do seu amigo, você já sabe que ele vai falar Piazzolla e sente com um arzinho de superioridade, como se você e o Astor, já fossem íntimos de longa data. Sabe essa sensação? É isso que eu sinto com o frio, é como se eu o conhecesse mais e melhor do que todos. Como se ele me pertencesse. Ei, o frio é meu.
Tudo isso me leva para longe, para 10 anos atrás. Outono, Ohta-ku, Tóquio, discman, sagamichi, uniforme, cabelos úmidos, azul, muito azul, felicidade que vem de lugar nenhum, sem saber porque, metrô, meus 18 anos.
Voltando ao presente, uma vez ouvi dizer que sou uma pessoa de decisão. Vivo confusa, indecisa, as vezes até medrosa e quando tomo atitudes, acho que são de supetão, mas ao longo desses anos, vi que foram as melhores decisões e nem se elas fossem milimetricamente calculadas dariam tão certo.
Outro dia abri uma portinha do meu passado, mais por curiosidade do que por saudade. A princípio, me pareceu interessante ver como a vida caminhava por lá, as direções que tinha tomado. Aquela vida independente que corria sem mim. Depois de um tempo percebi que aquilo não fazia mais parte da minha vida. A caixa de Pandora tinha que ser fechada rapidamente, antes que espalhasse todo o mal novamente. Foi fechada e selada. Endereçada ao desavisado que queira abrir.
Desavisado é a palavra. Quando uma caixa chega até você, qual a primeira coisa que você pensa? 3 chances para advinhar. Já falou presente de cara, não é? Imaginei... Presente, com laços, embrulho bonito. Depois de aberta, não era aquilo que você tinha imaginado. A caixa está vazia. Não tem nada lá. E o nada te preenche com tudo que há de desagradável no mundo. Fica difícil tirar tudo isso de você depois, porque é como uma fumaça que te impregna todo.
Mas você pode fechar a caixinha. Tantas vezes quiser. Depois de um tempo você passa a receber caixas com laços dourados e já joga no lixo sem nem mesmo abrir.
Mas era do frio que eu estava falando, né? Pois bem. O dia está lindo, as caixas estão fechadas e o presente está aí.
Eu pensei que ele nunca chegaria, enfim, assim sem falar nada, chegou nessa madrugada de maio. Ele. O frio, o anúncio do inverno. Me pegou de surpresa, acho que ele não sabia das minhas aulas de natação. Mas tudo bem, não foi tão ruim assim. Ele ficou na dele e nem me incomodou.
Como ele nunca vem sozinho, trouxe aquele azul que eu gosto tanto. Que dia diferente, pensei. Quando maio começa, sinto que uma porta é aberta, não sei se é porque é o mês que eu faço aniversário, ou é só a mudança do tempo que me traz algo novo. Mas hoje com certeza tem algo novo. Começo o dia ouvindo um lindo CD do Baden com o Grappelli, a melhor trilha para esse dia maravilhoso.
Sabe aquela sensação de intimidade que podemos ter com objetos, músicas, lugares, pessoas. Por exemplo, quando alguém fala para você: “Ei, ouvi um disco foda de um cara argentino, de tango...” – No meio da fala do seu amigo, você já sabe que ele vai falar Piazzolla e sente com um arzinho de superioridade, como se você e o Astor, já fossem íntimos de longa data. Sabe essa sensação? É isso que eu sinto com o frio, é como se eu o conhecesse mais e melhor do que todos. Como se ele me pertencesse. Ei, o frio é meu.
Tudo isso me leva para longe, para 10 anos atrás. Outono, Ohta-ku, Tóquio, discman, sagamichi, uniforme, cabelos úmidos, azul, muito azul, felicidade que vem de lugar nenhum, sem saber porque, metrô, meus 18 anos.
Voltando ao presente, uma vez ouvi dizer que sou uma pessoa de decisão. Vivo confusa, indecisa, as vezes até medrosa e quando tomo atitudes, acho que são de supetão, mas ao longo desses anos, vi que foram as melhores decisões e nem se elas fossem milimetricamente calculadas dariam tão certo.
Outro dia abri uma portinha do meu passado, mais por curiosidade do que por saudade. A princípio, me pareceu interessante ver como a vida caminhava por lá, as direções que tinha tomado. Aquela vida independente que corria sem mim. Depois de um tempo percebi que aquilo não fazia mais parte da minha vida. A caixa de Pandora tinha que ser fechada rapidamente, antes que espalhasse todo o mal novamente. Foi fechada e selada. Endereçada ao desavisado que queira abrir.
Desavisado é a palavra. Quando uma caixa chega até você, qual a primeira coisa que você pensa? 3 chances para advinhar. Já falou presente de cara, não é? Imaginei... Presente, com laços, embrulho bonito. Depois de aberta, não era aquilo que você tinha imaginado. A caixa está vazia. Não tem nada lá. E o nada te preenche com tudo que há de desagradável no mundo. Fica difícil tirar tudo isso de você depois, porque é como uma fumaça que te impregna todo.
Mas você pode fechar a caixinha. Tantas vezes quiser. Depois de um tempo você passa a receber caixas com laços dourados e já joga no lixo sem nem mesmo abrir.
Mas era do frio que eu estava falando, né? Pois bem. O dia está lindo, as caixas estão fechadas e o presente está aí.
Caracóis
(Na falta de coisa nova pra postar vai esse aqui de maio desse ano)
Linda. Era assim que estava e se sentia. Mas com muito medo daquilo tudo que vinha dela. Era natural, era ela. Tinha a perfeição da imperfeição. Leve, cacheada, simples mas emaranhada. Assim era.
Quem conseguiria derrubar aquela estátua? Assim foi ela. Entrou no lugar protegida por seus cachos castanhos.
Ele a avistou e disse: você tá engraçada. Ele nunca a havia visto assim. Tão solta, tão leve, tão cacheada e pensou o contrário. Pensou que estivesse armada. Será que ele foi tão cego de perceber que ela sempre foi assim? Ou foi ela que nunca se mostrou?
2 anos. Nada. Não pode ser ela. Como não, se ela nasceu assim?
Percebe quem merece. E só se deve mostrar a quem mereça.
Não estava armada, nem precisou de proteção. Ela se defendeu tão naturalmente quanto àqueles cachos que desciam desenhando seu rosto desproporcionalmente belo.
Ficou feliz. Olhou-se no espelho e não enxergava nada além de sua defeituosa, mas beleza. Elevou-se, apaixonada por si mesmo. Ela não via mais ninguém, tudo e todos ao seu redor pareciam insignificantes.
Ele a viu de novo e disse: desculpe, mas você está linda. Ela sorriu e disse: estou cansada, vou embora.
Foi para casa e dormiu com os anéis que saíam de sua cabeça.
Linda. Era assim que estava e se sentia. Mas com muito medo daquilo tudo que vinha dela. Era natural, era ela. Tinha a perfeição da imperfeição. Leve, cacheada, simples mas emaranhada. Assim era.
Quem conseguiria derrubar aquela estátua? Assim foi ela. Entrou no lugar protegida por seus cachos castanhos.
Ele a avistou e disse: você tá engraçada. Ele nunca a havia visto assim. Tão solta, tão leve, tão cacheada e pensou o contrário. Pensou que estivesse armada. Será que ele foi tão cego de perceber que ela sempre foi assim? Ou foi ela que nunca se mostrou?
2 anos. Nada. Não pode ser ela. Como não, se ela nasceu assim?
Percebe quem merece. E só se deve mostrar a quem mereça.
Não estava armada, nem precisou de proteção. Ela se defendeu tão naturalmente quanto àqueles cachos que desciam desenhando seu rosto desproporcionalmente belo.
Ficou feliz. Olhou-se no espelho e não enxergava nada além de sua defeituosa, mas beleza. Elevou-se, apaixonada por si mesmo. Ela não via mais ninguém, tudo e todos ao seu redor pareciam insignificantes.
Ele a viu de novo e disse: desculpe, mas você está linda. Ela sorriu e disse: estou cansada, vou embora.
Foi para casa e dormiu com os anéis que saíam de sua cabeça.
Friday, November 23, 2007
O livro aberto
Ele começou a ler o livro e insistiu para que ela lesse também, ela não queria. Não que não gostasse de ler, ela gosta muito, mas estava cansada. Ele pediu tanto e ainda sugeriu que lessem juntos. Assim faziam nas noites, nas manhãs, fins-de-semana e até em algumas tardes. Realmente o livro era bom, ela se surpreendeu. Um dia ela chegou em casa e o pegou lendo o livro sozinho, pediu pra acompanhar e ele se negou, já estava muito na frente. Ela perdeu muitas partes e não conseguiu mais entender o enredo, ele se negou a contar pra ela e quando o fazia era de má vontade. Até que um dia ele disse: “Terminei o livro”, ela perguntou: “ mas você não vai me contar a história?”, ele preferiu não contar e levou o livro consigo. Ela agora fica imaginando possíveis finais pra essa história.
Thursday, November 22, 2007
Pulsão de morte
Era um piso preto e branco, da década de 50, muito charmoso combinava com a cadeira do barbeiro. Um ruído de máquina 3 e ela cai rapidamente com os tuchos de cabelo dele, e fica no chão misturada com toda a cabeleira dele e dos outros clientes. Em seguida o ajudante do barbeiro passa a vassoura. Ainda há tempo de pegar os cabelos, pra colar não, talvez guardar num saquinho, dentro de uma gaveta. Tentar resgatá-los. Todos dizem que vai crescer, mas não é a mesma coisa. O fio novo substitui o velho sem lhe fazer qualquer caso. Pronto. Agora ela está no lixo. Aquilo tudo lhe causa uma grande claustrofobia. Mal consegue respirar e nem é por causa do cheiro a que ela é tão sensível, é a escuridão mesmo. Ele sai do salão mais leve e fresco, disse que era por causa do calor. Talvez ela o sufocasse. Mas se o fazia não sentia, todo o calor que o tinha dado era nas horas a toa, roçando suas costas nuas na barriga dele, e sentindo ele apertá-la contra si.
Os cabelos dela? Estão cada vez maiores, ela diz que não vai cortar. Ela já cresceu, e suas madeixas também crescem todos os dias.
Os cabelos dela? Estão cada vez maiores, ela diz que não vai cortar. Ela já cresceu, e suas madeixas também crescem todos os dias.
Chez Carina
Minha casa da catarse.
Nem sempre quem entra em mim pede para entrar (nem pra sair). Aqui é público, qualquer um pode entrar.
Pode mexer em tudo até tirar as coisas do lugar, porque eu sei direitinho como deixei tudo da última vez. Talvez eu até goste da sua mudança, pode ser hoje ou daqui a 2 anos, não importa. Por mais que você mexa, a casa é minha.
Nem sempre quem entra em mim pede para entrar (nem pra sair). Aqui é público, qualquer um pode entrar.
Pode mexer em tudo até tirar as coisas do lugar, porque eu sei direitinho como deixei tudo da última vez. Talvez eu até goste da sua mudança, pode ser hoje ou daqui a 2 anos, não importa. Por mais que você mexa, a casa é minha.
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