Tuesday, June 8, 2010

Marés

Na maré mansa, sou fraca
Economizo as minhas forças
Para os dias de ressaca.

Monday, May 31, 2010

Órfã

Estava tão apegada ao livro que começara a ler dois meses antes, que ao chegar ao final, tive que ler os agradecimentos na esperança de prolongar meus últimos momentos com ele.

Fechei a contra capa. Agora olho fixamente para a estante de livros. Dezenas deles me olham de volta esperando a sua vez.

Terminar um livro é morrer um pouco. Não é fácil despedir-se daqueles personagens que passam pelas nossas vidas traduzindo-nos em linhas nunca antes lidas, mas de súbito reconhecidas.

Agora é luto, que passa com outra história para renascer e morrer de novo.

Ps: Obrigada, amigo Tapioca, pelo presente de luto.

Tuesday, May 11, 2010

C'est la vie

Fazia sol e embaixo do pé de mexerica havia uma sombra gostosa. Peguei uma toalha velha, meu livro e deitei debaixo da "mexeriqueira". O livro estava bom, mas a grama também. Tão confortável que dormi.

Acordei com o sol queimando meus pés. Estiquei a coluna com preguiça e continuei lá parada, deitada de bruço observando só o que o meu campo de visão permitia.

Primeiro vi uma formiga grande, daquelas de bunda vermelha, ela se aproximava de mim com pressa. Andava desajeitada e feia, contornando a topografia do terreno. Logo depois apareceu um passarinho branco de cabeça preta, tão elegante que parecia dançar balé. Ele dava passos curtos sem perder a postura. Era bom observar aquela ave. Era leve. Acho que poderia ficar lá o dia todo só vendo ele se mover com graça. Depois de alguns minutos de contemplação senti uma picada no pé. A formiga me picou.

Thursday, April 29, 2010

Abaixo a ditatura do final triste

Não sei quando foi secretamente institucionalizado que para um filme ser bom o final tinha que ser triste. Obviamente estou exagerando na frase acima. Mas há tempos que os filmes que fazem chorar ou que mostram a “verdade” sobre a natureza humana são os que mais ganham prêmios em todo mundo.
Famílias desfuncionais, holocausto, guerra, ditadura, traições e doenças terminais são os preferidos de todo e qualquer festival.

Gosto muito destes tipos de filme, antes que me acusem de Poliana. Se a história é bem contada ou tem poesia, para mim está ótimo. Mas nesta busca pelo realismo, ou pela “a vida como ela é” perdeu-se algo muito importante: a vida também pode ser bonita, as pessoas podem ser boas e os finais podem ser felizes.

Um parêntesis: quando falo de final feliz, não me refiro àquela fórmula hollywoodiana de romances e comédias românticas em que o fim é advinhando no início, quiçá no cartaz, tamanha a previsibilidade.Fecha parêntesis.

Claro que o final mor - a morte - é triste. Mas dentro da vida de uma pessoa existem muitos momentos alegres. Como é bom ver um momento desses na tela dentro de uma hora e meia ou mais de duração. Uma história que acaba enquanto os personagens estão bem. Pode até ser que depois dos créditos um personagem traia o outro, ou alguém contraia uma doença fatal. Não quero saber. Quero ir para casa com aquele momento emoldurado em uma hora e meia ou mais de duração.

Escrevi esse texto anterior inspirada pelo último filme que vi: O segredo dos seus olhos, do argentino Juan José Campanella.

Tuesday, April 13, 2010

O vazio existencial entre o almoço e o lanche

Entre 4h e 4h30 ela sempre tem ataque de ansiedade. Bate o pé sentada na cadeira. Olha para o relógio. Vê se tem alguém comendo biscoito ao seu lado. Quer ficar em pé, ir até a cozinha tomar um chá, mas não faz nada disso. Espera 4h31 chegar.

Wednesday, April 7, 2010

Variação das folhas de outono

Minha cabeça transbordava melancolia, estava chegando em casa quando começou a tocar Black Trombone do Serge Gainsbourg no rádio. As notas tristes do trombone sonavam com o meu estado. Escutei prestando atenção em cada acorde e palavra. Black trombone, monotone, c’est l’automne de ma vie. É o outono da minha vida... Não sei o que Gainsbourg quis dizer com isso. Mas me senti dentro do outono da minha vida. Aquela estação fria e desfolhada. Monótona. Monotone. Nunca tinha pensado nessa palavra ali no meio da música. Quando ele a cantava, para mim estava se referindo a um “mono tom”, um som sem variação que saía do Black trombone. Foi aí que percebi a origem de monotonia (da palavra e da minha). E isso serve para o “mono tom” das folhas secas de outono.

Tuesday, March 16, 2010

Euphémisme

Quando eu falo que francês é o idioma mais lindo ninguém acredita, né?
Ok, mesmo que não seja, olha que eu aprendi ontem na aula. Pinta, em francês, é grains de beauté, que traduzido ao pé da letra é grãos de beleza. Ah! Tem coisa “mar” linda que isso? Só se for pernambuquês.

Wednesday, March 3, 2010

A dança da solitária

A música estava ótima. Sentia o meu corpo pingando dentro do vestido, não conseguia parar de dançar nem por um minuto. O cara que eu acabara de conhecer já estava de olho, o que me fazia afastar mais dele. Eu só via o momento que ele ia me tirar para dançar. Dava para ver a sua sombra se aproximando. Pronto, pegou-me pelo braço, pôs a mão na cintura e começou.
Todo o meu rebolado sumiu. Não tem jeito. Não sei dançar acompanhada. Só danço só. A música ia rolando e eu tive que me desculpar, olhe, só danço só.
Já tentei mas não consigo, por mais que eu goste de música para dançar juntinho, não dou conta.

E por mais que eu goste de amar não sei ficar junto. Falta-me o jogo de cintura, falta deixar-me levar, falta olhar nos olhos e não para o chão. Falta a confiança. Aprender que pisar no pé é normal e não é falta grave.

Tuesday, March 2, 2010

Por qué tanto perderse?

Nas ruas a arquitetura que faz andar até doer as pernas.
Becos misteriosos de onde saem outras línguas
Ladrões de bolsas, gritaria
Beleza gótica e também sombria
A noite apressada que chega antes do sol se por
E preguiçosa, que só acaba muito depois que o sol nasceu
Barcelona chora suas pessoas sozinhas
Faz festa todos os dias para abafar os lamentos
Se acorda, se vive, se come, se fode
Buenos dias y adiós.

Na cidade dos que querem se encontrar
Quem sabe em uma de suas esquinas densas e escuras?
Não se sabe o que se procura
Espera-se o acaso
Vão-se embora
Os que ficam é por ilusão
Porque na rua é férias
Todos são passageiros
Vêm e se vão.

Monday, March 1, 2010

Little shell

Todos me diziam, "ah, deixe esse cara pra lá. Não tem futuro nenhum".
Talvez eles estivessem certos, mas o fato é que nenhum dos meus amigos dormiu com ele para saber como é difícil esquecê-lo. Não me refiro a sexo (que também é incrível), estou falando de pós-coito.
Aquele safado bem sabia fazer um cafuné e dormia abraçadinho a noite toda. Ou nossos corpos encaixavam muito bem ou ele era um especialista na arte da conchinha.

A maioria dos caras te abraçam por 2 minutos e depois já viram pro lado, de costas para você. Acho isso um absurdo, sabia? Pra dormir com alguém assim, prefiro o conforto da minha cama vazia.

Nada mais gostoso do que ser rapidamente acordada no meio da noite com ele buscando o encaixe do meu corpo. E a gente conseguiu encaixes anatômicos maravilhosos. Como diria o Caetano, "é só um jeito de corpo". E continuando com a música: "perigo é perder você, mas mesmo na deprê, chama-se um Gilberto Gil."

Que venha o Gilberto Gil!

Sunday, February 28, 2010

Sem paixão

Você me abraça como abraça o ar.
No seu beijo sinto todo o seu vazio.
Você não está lá quando estou.

"A razão porque mando um sorriso"

Não é que eu pense o tempo todo em você. Não.
Sua lembrança chega como um vento frio no meu pescoço, me fazendo arrepiar até a ponta dos pés. Algo que que me leva a um sorriso de olhos e lábios fechados.
Penso em você sem tristeza. Já me conformei. Existem outras distâncias entre nós além da geográfica, que não sei se conseguiríamos encurtar. Para que tentar? Com você foi sempre imortalidade, final dos filmes de Honoré. Fim no susto e ausência de despedida.

Tuesday, February 2, 2010

O hino do fim

Era noite e eu dirigia pra casa, mais tarde pegaria um ônibus pra São Paulo.
Nos ouvidos, contra a lei de trânsito, fones. Não tinha som no carro e tão pouco compraria.
Não me lembro bem quais músicas estavam tocando. Só de uma, que começava com um violãozinho e um teclado, uma estética bem mpb anos 80. Não fosse sua melodia linda, até poderia tê-la chamado de cafona. Já tinha ouvido aquela canção dezenas de vezes, mas nunca nem parei pra pensar no que o cantor falava.

Naquela noite, no meio do trânsito caótico e completando duas semanas de rompimento, pelo qual não havia derramado uma lágrima sequer, comecei a entender tudo. Tão automático como uma tradução simultânea. Foi aí que chorei. Ia entendendo e chorando.

Não. "Não mereço um beijo partido". E o verso libertador: "eu serei pra você o que não me importa saber". Desde então ouvi várias versões de Beijo partido, em português, inglês, instrumentais. Versões mais bonitas que a do compositor, como a da Nana Caymmi. Outras versões de términos nunca bonitas.

Beijo partido - Toninho Horta
Vale escutar com a Nana e com o Milton

Quem é?

Olho para as minhas unhas verdes e parece que elas não são minhas. A cor é bonita, gosto de vê-las digitando essas palavras no teclado. Mas não sou eu, o problema não são as unhas, o esmalte sai com acetona. É que não sou eu mesma.
Ontem e hoje não sou eu. É você refletindo a minha imagem naquele espelho que comprei no show de horrores e guardo em casa para os dias mais sombrios. Achei que você nunca fosse encontrar, ele estava bem escondido. Mas sempre chega o dia que eu tiro do esconderijo e o coloco na porta da minha casa: olha o meu espelho, ele me deforma! Parece loucura, mas essa sim sou eu.

Silêncio para escutar

Tem dias que é melhor se calar. Vou deixar o Chet falar por mim.
Stella by starlight

Thursday, January 7, 2010

Silogismos

Se se pudesse converter amor em energia, eu iluminava o mundo inteiro até o dia em que morresse, e se o Chico diz que amores serão sempre amáveis, meu amor continua no mundo depois que eu me for, em forma de ar condicionado.

Thursday, December 10, 2009

Segredo

Você não tem nem ideia

do que provoca em mim

não deixo você saber

pra não te dar esse poder.

Dias chuvosos

O sol insiste em penetrar as nuvens chumbo

deixa chover, deixa molhar.

não é hora de azul

toda cor tem sua vez.

Thursday, December 3, 2009

Casa nova

Nada como ser bem relacionanda nessa vida, né?


Rafael Maia, um designer fodástico que eu amo de paixão, ouviu meus lamentos e deu uma repaginada na minha casa.

Estou apaixonada com a décor.


Rafa meu amor,


Amei. Amei. Amei.


Obrigada!


E quem quiser ver mais do trabalho desse designer que acaba de voltar da espanha, acesse (aproveitem que agora ele tá no Brasil):


http://rafael-maia.com/


Wednesday, December 2, 2009

Só os cães são felizes

Outro dia recebi um email daqueles bem cafonas, com um texto tenebroso falando sobre o amor pelos cães. Claro que fiz piada e pus pra fora todo o meu lado insensível, que sempre aparece quando o assunto é baranguice.


Hoje, no auge da minha TPM passei em frentre a uma pet shop e vi um filhotinho de pincher preso numa daquelas gaiolas/jaulas em que colocam os pobrezinhos. Fiquei hipnotizada pelos olhões tristes do cão e entrei na loja. Na maldita jaula havia uma placa " não toque os animais". Que raiva que me deu. Dava pra sentir que o bicho precisava de carinho.


Como eu não podia tocá-lo fiquei como uma boba fazendo gestos, caras e bocas e chamando-o de meu amor, fofura, lindeza de modeuso, até mandar beijo pro animalzinho eu mandei. E ele todo bonitinho balançando o rabo pra mim.


Quando caí em mim, todos os funcionários da loja estavam me observando. Ai que vergonha! Despedi do cão (tchau coisa mais "gotosa" da mamãe) e logo descobri quem é que está precisando de carinho.

Wednesday, November 25, 2009

Atraso

O jardim estava um pouco diferente da última vez que esteve lá, há alguns meses, mas era a mesma casa. Tocou a campainha. Na mão esquerda trazia um girassol, que escondia nas costas.

Aquele homem visto de trás com a flor daria uma bela foto.

Uma voz metálica de mulher saiu do interfone:

- Pois não?

- Eh... Lúcia?

- A Lúcia não mora mais aqui.- respondeu a mulher com segurança.

- Como não? Ela nem me avisou!

- Sinto muito, mas não tem nenhuma Lúcia...

- Espera um pouco. Não estou acreditando, você pode aparecer aqui fora só um pouco?

- Olha, eu estou ocupada...

- Só um minuto, queria deixar algo caso um dia ela apareça.

- Ok, mas só um minuto.

A mulher foi calmamente até o portão, tinha uma feição blasé.

- Lúcia?! É você! Porque mentiu pra mim?

- Não menti. Não sou Lúcia. Pra você, sou Luzia. Prazer.

Monday, November 16, 2009

40 graus

Nossas barrigas
coladas de suor
respiram juntas.

Wednesday, November 11, 2009

Música boa

Lá pelas tantas na boate, já bêbada de tanta cerveja, andava sorumbática, até que seu amigo gay a alertou:

- Olha o gatinho ali, e é HT, viu menina?

Aproveitou da sua borrachera para dar um oi.

- Oi!

- Oi!

Ela saiu fora, ele a puxou pelo braço:

-Volta aqui.

E muitos blá blá blás depois, ficaram.

Bêbada, ela ficava atirada, e ele encantador, ou talvez fosse só uma ilusão de álccol.

- Vamos lá pra casa?

- Onde você mora?

- Aqui perto, num condomínio em Nova Lima.

- Ah, será? Você tem computador lá? Só vou se você deixar eu te mostrar uma música do meu mp3 player.

- Tenho um som lá. Serve?

- Mas toca mp3?

- É... não sei, a gente pode tentar.

- Ok.

- Vamos no meu carro?

- Não, prefiro ir no meu.

E ela foi seguindo o rapaz.

Chegaram na casa, que mais parecia uma casa de campo com quadras, piscina e nenhum móvel, só uma cama box de casal.

- Você mora aqui?

- Não, na verdade, essa é a casa de campo dos meus pais.

- Hum...

O som era daqueles microsystems velhos, que nunca teria uma entrada USB.

Na falta de música, foram para o único móvel da casa e lá permaneceram a noite toda.

De manhã acordaram e conversavam coisas banais e engraçadas. Até que ouviram barulhos pela casa:

- Parece que não estamos sozinhos.

- Putz, são os meus pais!

- Mas eles são tranquilos?

- Não. Nenhum pouco.

- Ai que vergonha! Vou pular a janela.

- Se quiser eu trago seu carro pra cá, você faria isso por mim?

- Acho que sim, essa situação seria embaraçosa, né?

- Sim, muito.

Beijou-a novamente e perguntou:

- Você tem namorado?

- Não, por quê? Você tem namorada?

- Tenho.

Ela tentou fingir a cara de surpresa, mas não se sabe se conseguiu.

- Ah é? E namoram há muito tempo?

- 3 meses.

- E cadê ela?

- Deixei ela em casa e saí. Muito chata. Muito carente.

- Hum.. Aqui, já tá ficando tarde, melhor eu ir embora.

- Ok. Vou trazer seu carro pra perto da janela, tá?

- Ah não, pode deixar. Vou pela porta da frente mesmo.

- Tem certeza? E os meus pais?

- Tem problema não, querido. Vou adorar conhecê-los.

Ela vestiu a roupa da noite anterior, arrumou a maquiagem e saiu se sentindo poderosa.

Os pais do garotinho estavam cozinhando o almoço.

Ela foi até a mãe, se apresentou, deu um beijo e um abraço.

- Almoça com a gente hoje - convidou a mãe.

- Não mãe, ela tem compromisso.

- É, hoje eu tenho compromisso, mas fica para próxima. A propósito, o seu jardim está muito bem cuidado.

- Obrigada - a mãe sorriu orgulhosa.

O pai do garotinho olhava aquela cena com a cara mais constrangedora do universo, como se já tivesse passado por algo semelhante, e não foi tão receptivo com a garota petulante, mas mesmo assim, ela não se deu por vencida, foi até o velho babão e o cumprimentou com um dos seus sorrisos mais cativantes e irônicos, claro. Ela estava se divertindo.

O menino de 30 anos a levou até o carro.

- Você tem meu telefone. Pode me ligar.

- Ah, mas que bom que eu posso. Obrigada, pode esperar.

E despediu do bebezinho com um beijão que constrangeu aquele almoço de domingo.

Entrou no carro, apagou o telefone do bebezinho, ligou o som no talo e ouviu sozinha a música que tanto queria ouvir na noite passada. Chegou a uma conclusão: música boa não é para qualquer um.

Monday, November 9, 2009

Na praça

Saí mais cedo de casa para evitar o trânsito. Calculei mal, ainda faltava uma hora para a minha homologação. Já que estava longe de casa mesmo, resolvi esperar. Pensei em tomar um café mas estava quente. Fui para a praça da Liberdade, lá tem sempre uns banquinhos livres e sombra.

Ao contrário do resto da cidade, lá ventava e era gostoso sentir o vento retirando os fios de cabelos que caíam sobre meu rosto. Havia muito tempo que eu não sabia o que era estar à toa no meio da tarde sentada em um banco de praça. Esta sensação boa acabou logo que a vergonha e a culpa invadiram a minha mente. Não me permiti desfrutar desse momento mágico às 3 horas da tarde. Tive medo de encontrar conhecidos e ter que me justificar. Que ideia! Que dependência do olhar dos outros.

Na praça havia somente estudantes em seus uniformes, hippies e velhinhos aposentados passeando com seus netinhos. Muitos carrinhos de bebês e crianças aprendendo a andar. Um garotinho que nem 1 ano devia ter veio cambaleante em minha direção, com um olhar sério e fixo. Olhava tão dentro dos meus olhos que era como se eu fosse um fantasma e só ele poderia realmente me enxergar. Mesmo sem dar nenhum sorriso, aquele olhar era puro, não havia julgamentos nem segundas intenções. Aquilo subitamente me encheu de emoção.

Passado o encantamento pela despretensão do menininho, veio um aperto no coração em saber que enquanto ele aprendia a andar, também desaprendia a olhar com os olhos e passava essa função para a cabeça.

Respirei fundo e deixei o mal estar passar. O pior não é ver com a cabeça, é se enxergar no espelho dos olhos dos outros.

Tuesday, October 27, 2009

Portrait in black and white

Ladys and Gentlemen,

Chet Baker in Portrait in black and white.

(alguém sabe colocar mp3 pra tocar no blogspot?)

Na falta de mp3, vamos de you tube.

Parte 1 (sim, a música é enooooorme)

http://www.youtube.com/watch?v=GQAWDXbBZXo

Parte 2

http://www.youtube.com/watch?v=z09wX8tLYUk&feature=related

Monday, October 26, 2009

A mais do meu itunes

Era uma manhã chuvosa, entrei naquele café para tomar meu último capuccino em Berlim. Ela já estava pela metade mas era linda, e muito familiar, lembrava algo do meu país. Perguntei à dona do café que música era aquela.

- Portrait in white and black. Beautiful isn’t it?

Mas é claro! Era isso mesmo. Retrato em branco e preto. Mas havia uma coisa diferente nela, algo que nunca senti quando a ouvia.

- And who’s playing?

- Chet Baker.

Fiquei até o final dela, que tem quase 16 minutos de duração. Hoje, vindo para o trabalho e ouvindo a música, cheguei à conclusão de que o único motivo pelo qual Tom Jobim e Chico compuseram essa canção foi para que Chet Baker a gravasse anos depois. Desculpe-me a todos que já a interpretaram e aos próprios Tom e Chico, mas Chet transcedeu não só a letra como também a melodia, aliás ele criou outras melodias dentro de Retrato em branco e preto. Ele consegue fazer uma reviravolta de sentimentos dentro das frases. Ouvindo, consigo sentir melancolia, desespero, solidão, revolta, e um tipo de força que cresce dentro de mim como se eu quisesse vomitar tudo que não me faz bem. É lindo demais. E todas as vezes que ouço fico tocada.

Fico pensando em como Chet Baker conseguiu despejar tudo isso dentro de uma canção. Para mim é uma das catarses mais bonitas que já ouvi.

Para quem quiser ouvir, é do disco Live in Tokyo de 1987.

Tuesday, October 20, 2009

Começando a entender o livro, visse?

Tudo começou com olhares, tímidos dela e descarados dele. Depois de dois mojitos ela arriscou um sorriso. Após muitos olhares e sorrisos ele se aproximou.  

- Oi, tudo bem?
- Sim, de onde é esse sotaque?
- Sou do Recife.
- Ah...
- Seu nome?
- Bárbara. O seu?
- Pedro.
 
Silêncio seguido de mais sorrisos e olhares. Na falta de usar a boca para falar usaram para se beijar. Bárbara sugeriu que saíssem de perto das caixas de som para tomar uma cerveja. 

- Mas o que você faz aqui?
- Faço mestrado em Direito Internacional.
 
Ele poderia ter falado sou coveiro no cemitério local, ou qualquer outra coisa, aquele sotaque de Pernambuco fazia com que ela prestasse atenção nas palavras separadamente sem dar importância para as frases. Que coisa boa de se ouvir. Não tinha nada a ver com francês, mas para ela, apaixonada pelo idioma, era como se fosse. 

Não se sabe como chegaram a uma papo cabeça despretensioso, não importa, era ótimo. Ele dizia: 

- Sou marxista.
- Ah, um romântico como eu. – e ela ria
 
Livros, relações internacionais e aquele sotaque. Tudo perfeito. 
O estabelecimento já estava fechando, então ele a convidou para terminar o papo no seu apartamento. Ela nem conseguiu fazer-se de difícil. Pra que dificultar um momento de perfeição? Eles são tão raros... 

Chegaram na casa dele e para a sua surpresa ele colocou Take the A Train para tocar. 

- Duke Ellington?
- É. Comprei um box de cds dele, para conhecer e por causa das capinhas, são bonitinhas, não são?
- Bonitinhas? Repete! Você não tá forçando não, né? É assim que você fala mesmo?
- Bonitinha - e ele dava gargalhadas.

A forma como ele pronunciava o "ti" a encantava: Náutico, Atlético, bonitinha, sítio...
 
Ouviram músicas e conversaram até amanhecer. Sobre tudo e sobre nada. Dormiram. Mas às vezes enquanto se reviravam na cama, acordavam se olhavam com cara boa e voltavam a dormir. Bárbara teve sonhos deliciosos. Era gostoso dormir encaixada naquele corpo, sentir aquele calorzinho, um cheiro diferente, carinho...

Devem ter descansado no máximo 3 horas. No dia seguinte, ou seja, no mesmo dia, acordaram. Ele, eu não sei, mas ela continuava sonhando.

E o sonho seguiu perfeito, porém os dois tinham compromisso no dia e tiveram que se separar. E se foram sem promessas. Foi um raro momento de perfeição que agora está imortalizado. Nenhum minuto a mais, nenhum a menos. Um presente do acaso.

Thursday, October 15, 2009

Cafés da manhã com Vicente

Seu Vicente tem insônia, ele dorme vendo jornal Nacional e acorda às 3 da manhã. Perambula pela casa com uns 3 livros e uma revista, lê um pouco de cada até que o sono volte. Lá pelas 6 ele acorda e vai à padaria, onde todos o conhecem pelo nome.

- Oi seu Vicente, Tudo bom com o senhor?

Vicente que acorda bem-humorado todos os dias, devolve o cumprimento com um largo sorriso, que faz qualquer mau-humor matinal parecer vergonhoso e caprichoso.

Chega em casa com o pão quentinho e come um pouco. Logo vai para seu escritório ler ou travar uma batalha com aquele monstro tecnológico chamado computador. Ouve passos na escada. Deve ser um dos seus filhos que acordou. Vicente senta à mesa novamente e põe-se a conversar com Filipe, que lê o jornal. Futebol e política são o assunto da pauta. Filipe sai para o trabalho.

Agora é a vez da filha mais velha, que sempre está apressada e desorientada, comendo em pé. O pai a tranquiliza e diz: calma, senta, toma café comigo.

- Você ainda não tomou?

- Não.

O sorriso desconcertante do pai vale um pequeno atraso no trabalho. A filha senta enquanto o pai na maior calma do mundo corta um pedaço de pão e passa manteiga. Conversam sobre outros temas. Falam em francês, ela conta algo do seu trabalho, mas vê que não pode demorar mais. Dá um beijo e um abraço no Monsieur Vincent e sai correndo.

A última é a Luciana, essa foi esperta, escolheu uma profissão que lhe dá mais tempo. Conversada como o pai, passa um bom tempo com ele falando desde como reduzir o valor da conta de telefone a suas próximas viagens e bolsas de estudo. Ela sai e Vicente acaba de tomar seu quarto café da manhã.

Já são quase 10 da manhã. Depois de cumprir todos os afazeres que ele escreve em uma listinha, Vicente espera os filhos chegarem um por um para mais 3 jantares. Depois diz que não sabe porque não emagrece.

Thursday, October 8, 2009

Procuro emprego

Canto, danço e represento.

Friday, October 2, 2009

Espere

Que mania de ser apressado que a gente tem em entender as coisas, procurar respostas imediatas. Ontem me aconteceu algo. Uma coincidência que parecia o encaixe de uma peça, feito pela mão de um ser superior brincando com o quebra-cabeças de sentidos que é o mundo.

Estava lendo A Imortalidade do Milan Kundera, que ganhei da minha cunhadinha. Demorei pra pegar no tranco, confesso, mas o livro foi ficando interessante. Até que em um capítulo, uma personagem, Agnes, fala de um poema de Goethe que seu pai sempre lia para ela. O poema estava traduzido para o português, claro, mas na página seguinte estava em alemão. Eu que não falo nada de alemão (mentira, sei uns palavrões), fui ler de curiosa que sou. Foi ver a primeira frase que caí dentro de um déjà vu. Fechei os olhos e ia adivinhando frase por frase.

O poema, nada mais era do que a música que eu mais gostava de cantar quando fazia aulas de canto lírico, há muito tempo. Gostava da música porque achava que ela deixava a minha voz potente. Na época nunca soube o significado daquelas palavras, com exceção de uma: warte, que quer dizer espere.

É um poema sobre a morte, sobre poder descansar. Sei que foi tudo uma grande coincidência, mas gosto de procurar sentidos ocultos nestes meros acasos. Ando cansada, infeliz, e querendo que tudo se resolva logo, hoje, agora. Mas as coisas se resolvem e passam a fazer sentido com o tempo, quando a gente menos espera – reza o clichê mor.

É verdade, eu nem procurava a tradução dessa música e um dia, sem mais nem menos, ela me apareceu dizendo assim: warte.

Tuesday, September 22, 2009

Mulher sem razão

As melhores decisões que tomei foram de impulso, aliás foram todas.

Friday, September 18, 2009

Madri e os 30



A Internet é mesmo uma caixinha de surpresas. Eu tenho um flickr onde coloco as minhas fotos de amigos, viagens, coisas que eu gosto e que não tem NENHUMA pretensão artística. É apenas um lugar para dividir com meus amigos os momentos, que de alguma forma, marcaram a minha vida.

Outro dia recebi um email de um tal de Schmap, um site de lugares turísticos do mundo. Eles viram uma foto minha da Plaza Mayor de Madri e perguntaram eu podia inscrevê-la num concurso, a mais votada representaria a Plaza no site. Hoje o Schmap me escreveu novamente: a foto foi escolhida.

E a foto não tem nada de mais no sentido fotográfico, mas tem um sentido emocional para mim gigantesco. Ela foi tirada quando eu fiz 30 anos, sozinha em uma cidade que “me pegou de jeito”. Talvez de todas as cidades que eu já estive, Madri foi a que mais me marcou, não por sua beleza, seus museus e o Parque del Retiro, mas por ter encontrado uma pessoa que não via há tempos: eu mesma.

Tuesday, September 1, 2009

Ode ao ódio

Cansei de odiar as mesmas pessoas.
Quero odiar outras novas.

Wednesday, August 26, 2009

O buraco que ficou

Antes que Nicole partisse pela última vez da casa de Leonardo, ele quis deixar uma recordação sua com ela.

- Toma, esse é o meu preferido.

- Não vai ter dedicatória?

- Ah, é claro, espera aí que eu vou fazer.

Enquanto ele escrevia, ela andava pela sua casa olhando tudo que não veria jamais. O sofá-cama aberto em frente a televisão, a estante com os mesmos DVDs, o baleiro, o desodorante e a foto da outra mulher que o abraçava.

- Toma, espero que goste. Nicole não via nenhuma verdade nos seus olhos, o que ela via era um alívio que dizia baixinho: vá logo. E foi-se.

No caminho para casa sentia-se aliviada também. Aquilo tudo era ilusão. Faltava muito em Leonardo. Nicole tinha certeza.

Leu a dedicatória do livro mais uma vez e a achou tão genérica... “te dou este livro porque é o meu preferido...”, palavras pobres em uma letra bonita. Nicole preferiu virar outras páginas. O predileto de Leonardo ficou na estante acumulando poeira. Ela tinha horror e medo de abri-lo e encontrar aquela dedicatória sem sal.

Quando ela deixou a casa dele se sentiu tão aliviada, onde se encontrava essa sensação agora? Pensava nele descuidadamente. Parece que o tempo desbotou sua razão.

Numa madrugada de insônia, levantou-se da cama e ficou parada de frente para a estante de livros encarando o “preferido”. De impulso, retirou o livro com violência e foi direto para a dedicatória. Nada tinha mudado. Aquelas palavras continuavam ridículas. Pôs-se a lê-lo.

Primeiro capítulo, nada. Segundo, nada, terceiro, quarto, quinto, sexto... nada. Não é que Nicole procurava respostas no livro? Foi se envolvendo, gostando do enredo e algumas respostas começaram a aparecer. Encontrou até seu personagem. Que decepção! Nicole era um buraquinho. Sim, esse era seu papel no livro. Ficou chateada com a comparação que ela mesma fez. Será que ele pensava assim? Pode ser, mas nesse caso a história é dele. E Nicole será um buraquinho que não foi escavado suficientemente.

Tuesday, August 25, 2009

Tá difícil...

Hoje, enquanto tomava café-da-manhã com meu pai, percebi que chuviscava. Vi um guarda-chuva preto e uma sombrinha preta de bolinhas brancas, ou poás, no cabideiro. Fui logo pegando a de poás, mas hesitei um pouco e perguntei para o meu pai:

- Será que a mamãe vai precisar da sombrinha dela?

- Não, essa é minha.

- Eu falo da de bolinhas.

- Pois é, essa é a minha.

- De bolinhas, papai?

- Ué, o vendedor falou que era de homem e que tava usando muito – disse meu pai com a maior cara de inocência.

Não me contive, e a gargalhada explodiu na cara dele.

- Pode levar, Carina. É sua, te dou de presente.

Ficamos rindo por uns 5 minutos.

Acho que é por uns motivos desses que eu não consigo deixar a casa dos meus pais.

Monday, August 24, 2009

Mentiras cor-de-rosa

Já estava tudo preparado. Eu chegaria em casa assistiria a um filme leve, um musical, e depois dormiria horas para concretizar o meu plano: dormir mais.

O filme era 8 mulheres do François Ozon. Achei engraçado ser um musical, o Ozon sempre faz filmes tão sérios...
Músicas deliciosas e irônicas embalavam aquela história de enredo tragicômico. Fin. Desliguei a TV e fui formir. Lá pelas 5 acordei incomodada, algo não me deixava relaxar. Não precisei pensar muito para chegar no que me cortava o sono.

Foram as verdades. Quando se diz que verdade dói não estão mentindo. E como dói. E o filme era uma enxurrada de verdades. É possível construir uma harmonia com pequenas e grandes mentiras. "Eu te perdoo". "Desculpe, meu despertador quebrou". "O pneu do meu carro furou".

Para que mentir? Esconder erros e imperfeições? Porquê? Medo de magoar? Medo de ser odiado? Odiado por quem? Que dependência é essa do amor e da aprovação dos outros? No filme tem uma canção que traduz bem isso: De que adianta ser livre se se vive sem amor? A quoi sert de vivre libre, interpretada maravilhosamente pela Fanny Ardant, em que ela simula um strip tease, que pode ser visto como uma metáfora para o "desnudar-se". Nesse momento ela se expõe e canta a sua verdade.

É bonito, mas muito triste. Quem vive demais a verdade tem a tendência de ficar só, porque é muito difícil aceitá-la e compreendê-la. Tem até uma frase na música Misread do Kings of Convenience que diz: The loneliest people were the ones who always spoke the truth.

No filme, os personagens escondem "seus erros" com mentiras, porque errar é inadmissível. Mesmo para humanos. Estranhamente, sabendo de nossas limitações, continuamos cobrando essa perfeição das pessoas a nossa volta. Não toleramos uma mentira, mas não damos conta da verdade.

Caramba, tô escrevendo isso há 3 semanas e não consigo terminar, e para piorar a dobradinha verdade-mentira tem me perseguido: é no Paulinho da Viola, é na TV, nos livros... estou me sentindo encurralada. Acho que fui meio prematura em jogar pedras nos mentirosos, porque não existe a verdade absoluta. Cada um tem a sua. E às vezes a mentira é apenas um carinho de quem não queria magoar tanto.

Monday, August 3, 2009

Aquecimento global

Esse mormaço de verão em pleno inverno. Nenhum vento balança os meus cabelos, muito menos a minha alma.

Friday, July 24, 2009

O arquiteto de exteriores

"Vou querer dois metros e meio de livros nessa parede, naquela ali pode colocar meio metro de clássicos, para a mesa de centro um livro de ilustração, importado de preferência.

Naquele espaço vazio pode colocar cinquenta centímetros da coleção de Bach pela filarmônica de Berlim, acho que vai combinar com a estante dos sambistas. Gosto dos contrastes.

No quarto, cama grande. Vou precisar. Por preguiça e por luxúria.

A sala dos fundos pode ficar vazia, ninguém entra lá mesmo".

Pequeno demais

Para cada um, uma música
For no one
Eu só quero saber de você
Vai-se o amor
Fica a canção
Cried for no one
Um dia a verdade chega
Absoluta
Sem os relativismos complacentes
E a gente ri
Um riso irônico
Triste por não ser alegre
Falso como o que se passou
Engana-se alguém?
Talvez os honestos
Os falsos se protegem atrás de sombras
Que deformam a realidade
Mas basta faltar o sol que morrem
E ninguém vai ao enterro
Morrem sozinhas
Sem ninguém para chorar
Mas não rio
Apenas ignoro
Quem? Quando?
Não lembro.
Tão pequeno que eu não senti.

Tuesday, June 30, 2009

Debaixo do tapete

Acordei decidida a limpar a minha casa. Inacreditavelmente estava sem preguiça. Liguei o som alto e comecei pela a cama, estendi o lençol azul, dobrei o cobertor, e cobri com a colcha que mais gosto.

O chão estava cheio de roupas, cintos, meias – como pude ser tão descuidada e ter deixado acumular. A aparência do meu quarto mudou, ficou muito mais habitável.

Banheiro, cozinha, tudo brilhando. Só faltava varrer. Odeio varrer, porque sempre sobra um pouquinho que não cabe na pá. Ou eu pegava um pano molhado para tirar o pó final ou simplesmente empurrava para debaixo do tapete. Como eu já estava cansada de toda arrumação, segui a lei do menor esforço.

Ficou linda a minha casa, nem conseguia mais imaginá-la suja. Dava até gosto de ficar em casa sentindo orgulho do meu trabalho. Dias depois deitei em cima do tapete para ver TV e comecei a espirrar, o pó continuava lá, era tão pouco, mas me fez tão mal. Levantei com raiva e passei o pano molhado no chão.

Continuei espirrando por algum tempo, meu olho até encheu de água, mas já passou. Tá passando.

Sunday, June 28, 2009

Sem cerimônias em desenho

Feitos por minha amiga, a talentosa e sensível Denise Schwenck.

http://www.deniseschwenck.blogspot.com/










Friday, June 26, 2009

Dans Paris

Era seu penúltimo dia em Paris, vivia algo diferente, um estado de euforia provocado pela beleza da cidade e as novidades. Mas seu coração às vezes apertava, porque ele não dava sinais de vida? Logo abafava esse sentimento e a euforia tomava conta novamente.

Foi a um jantar preparado por seus novos amigos. Muito vinho, comida japonesa. Os sabores antigos acionavam uma das suas melhores memórias, o seu intercâmbio. Depois música, muito Paolo Conte, cenas de filme, François Ozon. Tudo aquilo a deixava a beira de um ataque de felicidade.

Quando todos iam para casa ela pensou: não posso ir dormir agora, tenho que aproveitar até a última gota dessa alegria.

Seu amigo a deixou na frente de uma boite da cidade, o Club Social. Ela olhou para o segurança, deixou transparecer sua confiança e entrou. Não era a roupa que escolheria para dançar, nem o sapato, nem o cabelo.

Ali ela tinha outro nome, Valentina. Valente, mas a ideia de estar sozinha em um lugar onde não conhecia ninguém a assustava um pouco. Pensou no bar, lá além de tomar um drink, poderia conversar com o barman, nos filmes isso sempre dava certo.

Analisou o menu. Tudo muito caro para o seu orçamento, a bebida mais barata que conseguiu era 5 euros – um shot de vodka. Virou o shot e encostou o bar, inebriada pelas luzes e a boa música que saía das pick ups do dj. Não se passaram nem 2 minutos e um rapaz se aproximou em francês: posso te convidar para um drink? Sua visão escaneou o rapaz de cima embaixo. Era atraente, cabelos castanhos encaracolados, pele branca cheia de sardinhas. Valentina sempre gostou de sardas, pintas e afins. Ela aceitou a vodka com energético e puseram-se a conversar.

Primeiro assunto: de onde você é? Espanha? Itália? Alemanha? Estados Unidos? Austrália? Índia? Portugal? E dá-lhe geografia, e dá-lhe nenhum acerto.
Rindo ela disse Brasil. A palavra Brasil sempre causou um estranho efeito nos homens estrangeiros, blame it on Rio.

O papo conntinou, o que você faz? O que faz aqui? Quantos dias? Cinema. Música. Filosofia de boite. E danças, e risadas, mais vodka com energético, e fotos e vídeos, e conversas com os amigos do rapaz, e amizades de uma noite só. E beijo. E mais beijo e mais e mais e mais e tesão.

Frederique propôs a Valentina sair logo dali para o seu apartamento. Ela nem pensou duas vezes. Oui, bien sûre.

Saíram os dois loucos pela madrugada parisiense, enconstando nos muros, beijando-se com violência, derrubando motos, e chegaram ao apartamento.

Frederique morava em um grande apartamento que dividia com mais duas amigas. No seu quarto havia vários livros de filosofia, anotações espalhadas, um mapa mundi e um piano. A cama era confortável, ela já foi deitando e ele seguiu atrás, beijaram-se e terminaram o que haviam começado. Foi mais ou menos. Para ela valeu muito mais a aventura.

Depois de tudo Frederique contou que tinha uma namorada na Turquia e que se arrependeu do que tinha acontecido. Valentina não deu a mínima para o desolado arrependimento dele e mais uma vez devorou le garçon, que logo esqueceu sua turca e caiu em um sono pesado. Exausta ela pensou em dormir, a cama estava convidativa e fazia frio. Olhou-o, ele babava no travesseiro completamente apagado.

Não conseguiu pensar nem uma vez, vestiu sua roupa e nem se despediu. Achou a saída do apartamento e saiu pela manhã gélida de Paris. Todas as ruas e edifícios pareciam iguais. Como acharia a casa onde estava hospedada? Seguiu seu instinto que estava falando alto naquele dia, 10 minutos depois encontrou a rua. Subiu e dormiu.
No dia seguinte já não era mais a Valentina, era ela mesmo. Tinha adorado as aventuras da outra na noite anterior.

Valentina preferiu ficar em Paris, mas soube-se que às vezes ela vem ao Brasil de visita.

Monday, June 22, 2009

Sem cerimônias

Ela precisava voltar para ver como tinha deixado tudo. Abriu a porta e recebeu um abraço caloroso que causou pequenos terremotos em seu estômago, quase perde o equilíbrio. Não sabe se foi ele ou ela quem tomou a iniciativa do beijo, pouco importava, era recíproco.

Ele a mostrou um livro de gravuras que havia comprado, ela via as imagens fingindo um certo interesse, não queria perder seu tempo, queria ir pra cama dele que imaginava desarrumada com o lençol e o edredom enrolados. A cama desarrumada dava uma sensação de conforto. Lembrou-se de quando era pequena e a empregava faltava, encontrava sua cama toda revirada como havia deixado pela manhã, e se jogava nos lençóis, sentia a textura do algodão nas suas pernas, era um pequeno momento de felicidade.

Olhou para ele com cara de menina pidona, na mesma hora ele entendeu e fechou o livro. Pegou sua mão e a levou para o quarto.

Sentaram-se na cama e ele começou a despi-la, peça por peça, parou no sutiã, era um modelo novo, cruzado nas costas que ele ainda não conhecia, depois de analisá-lo o tirou e só ela poderia dizer como o rosto dele se iluminou ao ver seus seios que não eram grandes nem pequenos, brancos com a auréola rosada, que se destacavam do resto do seu corpo moreno de sol. Pegou-os com vontade e beijou-os. Ela se estremeceu, ver aquele prazer nos olhos dele a deixava cada vez mais excitada. Tirou a roupa dele sem o mesmo cuidado, ela precisava senti-lo, encostar cada parte do seu corpo no dele.

Aquela pele, o cheiro, tudo a deixava cada vez mais ébria. Agora ela era ela, senhora de si, sem fingimentos, sem interesses. Gozou mais rápido do que costume, já não conseguia segurar mais as fantasias que teve pensando nele por toda uma semana. Ele tão pouco conseguiu segurar.

Foi intenso. Foi explosivo. Foi a última vez.

Olharam-se e beijaram-se, ficaram grudados um ao outro pelo suor dos seus corpos. Ela não queria desgrudar, desejava que esse momento durasse pelo menos uma noite. Impossível, estavam em seus horários de almoço. Em pouco tempo teriam que voltar para o trabalho.

Ele foi ao banheiro e quando voltou a encontrou nua, sentada na beirada da cama, cantarolando uma canção que falava de um amor unilateral. Ele a olhou e fez um carinho tão terno que a emocionou, ressabiada perguntou: porque esse carinho?
Ele: saudade de você e da sua cantoria.

Apesar de tudo, ela sabia que não era possível ficarem juntos, não só porque ele não queria, mas porque ela descobriu que ele não fora feito para ela. Muito fechado, e só se abria durante o sexo. Ela tentava se abrir e ele não permitia, não queria saber. O sexo já estava de bom tamanho. Ela que gostava dos detalhes, da poesia, das complicações do ser-humano, das descobertas, não aguentou. Despediu-se ali mesmo, silenciosamente, mas ele escutou. Seus olhos de libanesa falavam mais que sua voz doce e meio rouca.

Saiu com os olhos molhados mas com um sorriso no canto dos lábios. Nada a deixava mais feliz do que uma decisão.

Tuesday, June 16, 2009

Andar sem sair do lugar

Todo dia ele fazia o mesmo caminho. Saía de casa, virava à esquerda, 20 m depois à direita e seguia reto toda a vida. Chegava ao trabalho, saía para o almoço pontualmente. Mesma mesa do mesmo restaurante barato. Café com os mesmos conhecidos, trabalho e o caminho inverso, toda a vida, esquerda, 20 metros e direita.

Um dia interditaram seu caminho, ficou perdido. Sentou-se no chão desesperado. Não conseguia ir para direita nem para a esquerda, tentou descer para debaixo dos seus pés, mas não foi possível. Depois de tanto tempo em pé na frente de casa descobriu um novo caminho, e mais outro, e mais outro e um monte mais. Uns eram mais interessantes, outros mais rápidos, outros perigosos.

Até que um dia, sem mapa, nem GPS viu um caminho diferente que nunca tinha visto, nem sabia que ele existia. Era um caminho cheio de música, cor e risos. Ele adorava esse caminho. Repetia todos os dias, andava por ele saltitando, estava feliz.

No dia seguinte o caminho colorido estava fechado para reformas, a placa dizia que era por pouco tempo. Ele pensou em esperar as reformas, mas passando pelo seu antigo caminho observou que não estava mais interditado. Sentiu-se esquisito, não sabia se passava por essas ruas sem cor que conhecia de cor. Olhou para o caminho colorido pela última vez e seguiu a direita, a esquerda e reto por toda vida.

Tuesday, May 12, 2009

Impressões de Algum Lugar, Mundo.

Letícia sai para uma caminhada em sua vizinhança e passa por estranhos, pessoas aparentemente marcantes que logo serão esquecidas.
Ouve barulhos de criança que vem de um grande parque a sua frente. Resolve entrar. O parque é sujo, cheio de papéis, restos de copos plásticos; nada que ela esperava encontrar a milhares de quilômetros de casa. Estrangeiros e locais dividem o espaço público em pequenas rodas de violão, ou de cerveja, ou de maconha. E ha os solitários como ela, que leem ou olham a paisagem.

Ela estende a canga preta e branca que havia comprado de um ambulante em uma praia da sua terra natal e deita na grama. Observa tudo e tenta encontrar um significado para este momento em sua vida. Não encontra nada. Abre um livro, lê um parágrafo. O livro é bom, não há duvidas, mas um pouco masculino demais para a sua sensibilidade.

Um pouco enfadada do livro, abre seu bloco de notas e com a caneta macia que ganhou de presente de formatura, põe-se a escrever.

Escreve para ficar alheia a tudo. Para ficar invisível para o resto e visível para si mesma. Lembra-se da noite anterior: músicas, sotaques, línguas, drogas, bebidas e Joaquim.

Tão perdido quanto ela, sóbrio no meio de tanta gente louca. A princípio Letícia não o notou, reparou mais em seu amigo Rafael, um belo exemplo da raça masculina. Joaquim era normal, mas depois de sua primeira palavra, sua beleza cresceu. Era inteligente, engraçado, atencioso e quando sorria mostrava os dentes e fechava os olhos. Ela gostava de ver as pequenas rugas que se formavam ao redor dos seus olhos castanhos.

Naqueles momentos juntos não havia o seu país nem o dele, muito menos a música e as pessoas ensandecidas. Só havia dois jovens rindo e fazendo uma salada de idiomas. E como nada é perfeito, Joaquim vai ser pai de uma garotinha em 2 meses. Foi bom. Uma desesperança que a encheu de esperança. Lembranças que vem como o vento.

Saturday, April 11, 2009

Com a faca e o meu coração na mão

Eu me entrego se você se entregar, senão nada feito
Só me mostro quando você parar de esconder
Fiquemos os dois deitados no escuro
Só falo se você perguntar
Estou sem vontade própria
Talvez esteja com medo
Espero algo que não sei que é
Isso vai acabar logo
Mas foi bom te conhecer
Saí da minha rotina, pus os pés no chão gelado da sua casa cinza, da cor do seus sentimentos
Sou capaz de me abrir, muito. Mas apenas depois do sinal
Pode ser que eu saia antes disso. Se você não quer entrar não tem problema
Na verdade não me importo muito. É tudo uma questão de vaidade que se cicatriza com o tempo.

A médium

Isabel sempre teve a irritante mania de querer adivinhar o que os outros pensam. Quando está ao lado de alguém, ela aperta os olhos, se concentra e fica bem calada para escutar alguma coisa. Silêncio completo. Assim ela passa para a segunda tática, os olhos. Ela os mira fixamente para tentar ler algo e o único que lê é seu próprio pensamento. Agora só lhe restam os gestos, e... nada. O que aconteceu? Ela é incapaz de adivinhar ou é ele que pensa em nada? Uma dúvida que corrói a cabecinha fervilhante de Isabel.

Wednesday, March 25, 2009

Boazinha pero no mucho

O código foi quebrado. O disfarce já não serve para nada. A fantasia é mais berrante do que as usadas no carnaval. Para que tanto esforço se se nasce nu e nossa nudez é o que realmente temos. Tudo um grande teatro com interpretações sofríveis para esconder o sofrimento. Que pena... pobrecita... Vai lá, coloque sua armadura prateada e parta para a guerra, mas não chore a sua derrota, ninguém te obrigou a lutar. A guerra é sua, inexistente, ninguém dá a mínima. Quem ganhou, quem perdeu? A mi me importa un carajo! Um dia isso passa, ou pode ser a sua eternidade particular, lo siento. Mentira. Foda-se!

Sunday, March 8, 2009

Chiaro oscuro

Fazia muito calor, era quase março e nem o auge do verão, janeiro, tinha sido tão quente quanto aquele dia. Nicole podia ter ficado em casa e esperado o calor passar, mas não. Preferiu encontrar seus velhos e bons amigos. Já estava disposta a transgredir as ordens do médico que a proibira de tomar álcool enquanto estivesse sob o efeito de anti-inflamatórios. Ela pensou “essa torcicolo está me matando, mas não quero perder este dia com meus amigos, nunca mais terei 29 anos no dia 27 de fevereiro de 2009. E isso era verdade, cada dia que passasse seria menos um dia de sua vida. Não que fosse morrer amanhã, mas não que não fosse morrer amanhã. Quem saberia... assim optou pela imortalidade, como sempre.

Inesperadamente tudo ficou claro, não claro de cegar, mas claro de esclarecer. Aí perdeu a graça e o sentido. Ficou óbvio que ela preferia a obscuridade, enganar-se.
Mas tudo bem, existem vários tons de claro, e os que ela conhecia eram todos desbotados, apenas resquícios de uma grande mentira, daí sua preferência pelo escuro. Mas tudo isso passou, talvez tenha sido sua culpa, não por maldade, mas por ingenuidade. Foi bom. Mais uma construtiva perda de tempo. Se aprendeu algo, foi só sobre aquele momento, agora ela volta mais uma vez para o preto total, que por sinal, adora.

Thursday, February 5, 2009

Tears for Dolphy

Nunca vi um filme que me deixasse tão agoniada quanto Teorema, não sei se é a música, Tears for Dolphy, que entrava toda hora queimando as minhas vísceras. Sempre que eu a ouço, acho-a parecida com uma marcha fúnebre, mas não consigo parar de ouvir.
Fico hipinotizada e coloco no repeat. E só quero escutá-la quando fico sem ação. Quando não sei o que fazer. É como se eu parasse só para ouvir a música na esperança que ela pudesse me purificar.

Outro dia, pesquisando sobre Tears for Dolphy descobri que o seu compositor, Ted Curson a fez em homenagem póstuma ao seu amigo Dolphy. Foi uma música catarse. Ele também devia estar querendo se purificar da dor de perder um amigo. É engraçado como nos encontramos na catarse alheia.

Em Teorema os personagens estão também paralisados, sejam em seus vícios, nas suas crenças, ambições ou loucuras. Todos esperando um anjo cair do céu para ajudá-los a escapar do sofrimento. Essas pessoas têm tudo, mas falta algo e é essa falta que as tornam tão miseráveis. O que é que falta? É amor? O anjo traria amor?

Alguém pode realmente trazer amor? Tão subestimado e ridicularizado o amor. Falo de um amor maior, interior, de algo que inunda sem deixar afogar.