Monday, August 30, 2010

Café forte pra acordar

Acordou sem saber aonde estava, o que é bastante comum quando se está viajando há muito tempo. Viu os lençóis pretos e ao lado o moço loiro dormindo de boca aberta. Lembrou da noite passada em flashes. As risadas, as piadinhas, as brincadeiras...

Ela mexeu um pouco para que ele se despertasse “naturalmente”.

- Bonjour – disse ele com a voz de sono e os olhos meio fechados. Ele era carioca, mas seu pai, francês. Falava muito bem a língua e ela estava aprendendo, apesar de que, bêbada, falasse melhor.

Ficaram mais um pouco na cama e ela ia lembrando de como tinha sido. A cantada dele, o primeiro beijo...

- Se você quiser pode tomar um banho, pego uma toalha para você...- e interrompeu os pensamentos dela.

- Ah, vou querer sim – ela respondeu imaginando como seria o dia dos dois e tomou banho, explorando os shampoos e os condionadores de marcas que nunca tinha visto em um idioma que não entendia muito bem.

Chegou no quarto enrolada na toalha e ele foi logo lhe avisando:

- Olha, sem querer ser chato mas já sendo, vou ter que te pedir pra sair, porque tenho que trabalhar.

Por essa ela não esperava, vestiu a sua cara de pau e disse:

- Tudo bem, mas e o meu café-da-manhã?
- Sabe o que que é? Não tive tempo de fazer compras essa semana e a minha geladeira está vazia.
- Ah...

Dessa vez vestiu foi a roupa da noite anterior e saiu. Por sorte tinha trazido o mapa do metrô. Andando ao meio dia com aquele salto alto, meia calça preta e vestido ela sentiu uma certa vergonha, pensava se as pessoas achariam que ela era uma puta. Sempre tinha essa sensação quando usava a roupa da noite anterior.

Chegou no metrô. Depois que a ideia de “acham que sou puta ou não?” saiu da sua cabeça pensou na falta de educação do seu anfitrião.

- Porra! Nem um mísero pão de café-da-manhã? O cara me come a noite toda e de manhã não me dá nada pra comer? – o trocadilho era inevitável, mesmo sentindo seu estômago e a sua raiva se corroendo em ácido gástrico.

Depois desse evento, ela se tornou militante do café-da-manhã do dia seguinte. Escreveu um manifesto para todos os seus amigos. Arrumou um bando de pessoas prol do desjejum. E muita gente aderiu à causa.

Passou muito tempo cultivando o ódio contra os desprovidos de geladeira cheia, quando um dia leu no Livro do riso e do esquecimento do Milan Kundera:

“Oh, amantes, sejam prudentes nesses perigosos primeiros dias! Se levarem
para o outro o café-da-manhã na cama, terão de levá-lo para sempre,
se não quiserem ser acusados de desamor e de traição."

Aquela revolta toda contra os desertores da refeição matinal desabou na frente dos seus olhos, porque percebeu que café-da-manhã tinha um significado maior do que a primeira refeição do dia. O desjejum significava afeto, atenção, carinho, algo que um amor fast food não é capaz de dar. Ela estava procurando amor no restaurante errado.


6 comments:

babi said...

café da manhã eu não ganho, não. só jantar com ele no bandejão. o amor pode se travestir de outras refeições.

farinhademandioca said...

Adorei isso: O desjejum significava afeto, atenção, carinho, algo que um amor fast food não é capaz de dar.

Juliana Caribé said...

Carina, que bonito "ela estava procurando amor no restaurante errado". E como é verdadeiro. A gente procura coisas erradas nos lugares e nas pessoas erradas...

Juliana said...

ai...! como eu me identifico com esse texto...

Isabela Welter said...

adorei

contoscurtos said...

"ela estava procurando amor no restaurante errado". Muito bom, mocinha! Oferecer comida pra quem não está com fome também é um problema.